ESTRANHA AQUELA NOITE!
![]() |
| ANTIGO BANCO DA PRAÇA DA ALEGRIA |
Habitar o tempo em vez de correr atrás dele. Bom conselho para os dias atuais. Chega o tempo em que é preciso apagar as queixas, cicatrizar as feridas, e nada melhor a fazer senão ir ao encontro do que não é material, que não é o corpo físico, mas algo sutil que está em nós, separado da carne, e nos completa, harmoniza com o que somos em essência. A descoberta das palavras, e ao mesmo tempo descobrir a si mesma e suas origens. Saber que pertenço àquela ilha, àquela terra onde vento e mar molda a vida. O sol a aguçar meus sentidos, e meu olhar a adquiriu reflexos de tudo que é antigo encanto, tudo que foi erguido naquelas ruas de pedra, onde aprendi o que é passageiro e o que é eternidade.
Estranha aquela noite. Ela acredita em coincidências, e quando vinha da faculdade de Serviço Social, pensando no trabalho para fazer sobre a situação da pobreza em S. Luís, um cara mascarado, era semana do carnaval, aproxima-se dela pedindo a bolsa. A cidade deserta, conseguiu correr, e antes que fosse alcançada chegou à praça perto de casa. Esbaforida, por sorte ali estava um homem dos seus cinquenta anos, que veio ao seu encontro. Vê que ele estava em seus preparos para dormir no banco, não parecia perigoso, mas um tanto amalucado, era conhecido na cidade pela alcunha de “casaca curta”, que diante dos gritos da molecada revidava: ”Casaca curta é .... da mãe. Ficou ao seu lado à espera do guarda da ronda noturna. O pobre homem após algum tempo resolveu inqueri-la:
—Senhora, ele disse, não sei se já notou os
mistérios que habita nossa cidade. Há uma rede de canais subterrâneos unindo algumas
edificações aqui no centro da cidade, que ninguém ousou percorrer desde que foram desativadas. Veja bem a coincidências,
hoje mesmo adquiri coragem e percorri parte daquele labirinto, e o que encontrei
foi somente um ninho de serpentes.
Não há magia nisso. A senhora deve ser uma pessoa instruída, boa leitora, e
sabe do que falo.
Ela lembrou-se do mistério contido na lenda da serpente de S. Luís. Com receio de retornar para casa ficou escutando o homem que parecia desejoso de falar.
— Estava estendendo minha
manta para dormir, no passado não tinha receio, mas a bandidagem cresceu, e sei
de casos no sul do país que queimam as pessoas sem teto, tenho medo. Gente ruim existe desde que o mundo é mundo, falta educação, amor ao
próximo. E o que não falta por aqui é gente pronta para dar o bote, que envenena com a língua, serpentes. Alegre essa nossa gente, o carnaval é uma amostra, com festa o mês
inteiro. “Por fora bela
viola, por dentro pão bolorento”, já dizia minha mãe, Deus a tenha. Morreu tuberculosa,
coitada, deixando esse seu filho desmiolado, que pouco aprendeu.
Vou lhe dizer uma coisa, um país rico como o nosso Brasil, e uma criança adoece
da cabeça por falta de comida, não pode acontecer.
O guarda chegou, e logo prontificou-se para acompanhá-la até sua casa. Já deitada, não conseguia adormecer, menos preocupada com o ladrão,
que desapareceu por milagre. Lembrava mais do pobre
homem que dormia ao relento, perto dali, na Praça da Alegria. Mas não parecia ser uma pessoa infeliz.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário