sexta-feira, 24 de julho de 2015
O BEM, O MAL, O MAGISTRAL
Gente boa
evita falar dos outros para acusar; gente ruim, ao contrário, tem que achar
culpa, ou desculpa, para tudo. a diversão preferida do malvado é apontar erro nos
outros, no mínimo, um chato. Mas tem os gênios da maldade, que seduzem. Pior é
que costumam, inclusive, colocar seus próprios defeitos na conta dos outros. Chegam
a ser convincentes. Geralmente uma pessoa memoriosa. Ser malvado é para alguns
uma arte, assim como tocar piano, fazer teatro. Seriam artistas frustrados? O
malvado despreza o bom, a quem pode devotar até ódio, enquanto se derrete para
quem o trata com indiferença, desprezo.
Conviver
com quem vê mal em tudo e em todos, não é fácil. O mundo realmente está um
descalabro, aumentou a quantidade de gente e diminuiu sua qualidade. Mas
podemos encontrar pessoas de qualidade, sim, só que não andam dando sopa por aí.
Adorarmos encontrar pessoas boas, e ter alguém para chamar de meu tipo inesquecível
é o máximo. Alguém que não se pode esquecer, por suas boas qualidades. Nem sempre
podemos escapar das passagens pouco gradáveis, que nos incomodam a
memória, e só resta fazer catarse, através da leitura, da escrita e outros meios. Tratar
de esquecer as coisas ruins e só lembrar das boas, ou alguma experiência magistral. Tão rica que é a vida!
quarta-feira, 22 de julho de 2015
JUVENTUDE
Mocidade
FLORBELA ESPANCA
A mocidade esplêndida vibrante,
Ardente, extraordinária, audaciosa,
Que vê num cardo a folha duma rosa,
Na gota de água o brilho de um diamante;
Essa que fez de mim Judeu Errante
Do espírito, a torrente caudalosa,
Dos vendavais irmã tempestuosa,
- Trago-a em mim vermelha, triunfante!
No meu sangue rubis correm dispersos:
- Chama subindo ao alto nos meus versos,
Papoilas nos meus lábios a florir!
Ama-me doida, estonteadoramente,
Ó meu Amor!, que o coração da gente
É tão pequeno...e a vida, água a fugir...
sábado, 18 de julho de 2015
A GRANDE FAMÍLIA
No passado as famílias moravam em casas
espaçosas, e era comum os filhos continuarem residindo com os pais depois de
casados, geralmente por necessidade, ou mesmo comodismo. O casal, ou os casais,
permaneciam nessa situação por muitos anos, até a vida toda. A coisa aceita como
norma, e todos se dando bem em família. Por falta de dinheiro, também porque a
mulher era induzida a casar muito cedo, e sem maturidade para arcar sozinha com a
responsabilidade do novo lar, cuidar do marido e dos filhos. Era o que a
família original pensava. Havia casos em que o novo par assumia a direção da
casa e tudo ficava numa boa, os pais felizes por terem quem cuidasse deles na
velhice. Havia abusos de poder, mas tudo bem, valia a pena pela família, que permanecia
unida.
Ou melhor seria que cada um casasse e fosse
morar em sua própria casa? O alerta veio em boa hora, que os casais começaram a
se desentender, cada um querendo puxar a brasa para sua sardinha. É uma brasa,
mora? Roberto Carlos que o diga, com casamentos um atrás do outro, incentivando
a moçada. Não apenas ele, especialmente a turma dos psicólogos. Acomodar-se
em casa dos pais, ou partir para a experiência mais importante da vida que é
ter seu próprio lar? A ruptura foi drástica, e muita gente saiu de casa para
morar sozinha, que o barato, mesmo, era estar livre, leve e solta. A
profissionalização foi a mola mestra da mudança. E o pleno emprego da época, que os mais
novos deixavam de depender financeiramente dos mais velhos. E emocionalmente?
Ninguém queria pensar nisso.
Longe da casa e do controle, que se
dizia burguês, as pessoas foram viver suas experiências. A tecnologia dava
condições para que a vida fosse cada vez mais confortável, mais fácil. A expectativa era grande, e a desconfiança idem, na mesma data, que a família sumisse, ela que vinha se deteriorando. Mesmo assim a nova
geração era reverenciada como se tivesse atingido o ápice da evolução, os mais velhos, vistos como primitivos habitantes da terra, e alguns eram assim mesmo. Mas
o que estava ali para todo mundo usufruir era fruto do trabalho e do saber,
acumulado geração após geração, gente que acreditou no progresso e foi leal aos bons princípios. Não entender isso é navegar em águas turvas, e
todo mundo sabe disso. O certo é que, hoje, para se ter uma grande família, não
precisa que ela seja numerosa em número de filhos, nem é conveniente que seja assim, mas se exija dos seus
membros respeito e cooperação.
sexta-feira, 17 de julho de 2015
LIÇÃO DE MÚSICA
O liberalismo econômico e, em
especial, a fé reformada, faz com que o progresso e o dinheiro deixem de ser
mal vistos. Às portas da modernidade, na rica República holandesa
recém-inaugurada, a mulher começa a sair da obscuridade. Momento teria
compensado a espera, justamente quando Vermeer
pinta seus quadros. A intenção da arte barroca é, principalmente instruir, o que faz o pintor ao mostrar para as moças, modelos de comportamento, além de fazer propaganda dos produtos que expõe. Foi Vermeer um dos representantes da famosa arte holandesa do século XVII. As
mulheres pintadas pelo artista exercem atividades diversas, bem vestidas e penteadas como para uma festa, salvo a leiteira no quadro do mesmo nome, cuja intenção é o glamour para esconder o aspecto tosco, comum em algumas dessas mulheres. No quadro Lição de Música a cena mostra uma moça cercada de objetos, que podem ser da coleção
particular, ou expostos para serem negociados. Ela certamente pertence à burguesia próspera, e é revelador que esteja de pé frente ao piano e de costas para o espectador que
a vê dedilhar um instrumento musical, sua face refletida num espelho pendurada na parede logo
acima. Ao seu lado um mestre e instrutor.
O barroco é a expressão artística
com a qual o pintor de Delft mostra a nova postura feminina, uma farsa por trás do que
se vê na aparência. No quadro, um espelho raro e caro, onde a mulher se mira, assim como o piano, onde ela exercita sua arte e vaidade, também nos demais objetos expostos, com o mesmo fim. Vermeer a se
penitenciar por ser ao mesmo tempo artista e propagandista, menos por gosto e
mais por dinheiro. Com menos gosto ainda Vermeer expõe em sua pintura-vitrine o
feminismo, o consumismo, que então se esboça. O instrumento musical é simplesmente
um rico e belo objeto de consumo, e não passaria de um estímulo à vaidade da moça,
que simula tocar algo. Pensava-se a música como bálsamo para o espírito, o que está escrito no tampo do virginal: A Música companheira da alegria, balsamo para o espírito. Os reformistas, que se dizem herdeiros do povo hebreu, e certamente
Vermeer junto com eles, pensam, todavia, que a instrução musical seria uma forma das pessoas se afastarem da fé, e tática das mulheres fugirem das suas reais funções de esposas atenciosas, mães
dedicadas, filhas obedientes. O pintor barroco não estava de todo sem razão. Seria
uma incógnita a nova Republica, assim como o progresso, o feminismo, e o
próprio arte de pintar.
Os homens até então ocupados
em suas viagens comercias e de conquistas pelo mundo, em cruéis batalhas contra o poder espanhol. Enquanto
isso, as mulheres ficavam reclusas nos lares e nos conventos, longe da violência,
mas também da vida pública. As armas dos homens feitas para matar, diferentes das armas
femininas da sedução maternal e sexual. Com a riqueza acumulada, muda a
sociedade, e também suas mulheres, que optam
pela instrução. No século XVII as holandesas leem e escrevem, assim como tocam
algum instrumento musical, o que faz parte da educação liberal para elas, que passam
a evitar, sim, e com toda a razão, a sexualidade e a maternidade, compulsórias.
Penso que para Vermeer tudo seria engodo, trama, do feminismo, que então se esboça, o que ele
denuncia, como se previsse nossa
pós-modernidade, as mulheres, em sua maioria, optando por não casar, não ter
filhos, e a consumir desastradamente, inclusive, roupas desbotadas e rasgadas, numa
simulação, em sentido oposto à lição de música do pintor. A lição de Vermeer, como pintor barroco, são os comportamentos. Houve progresso, material, sim, mas a sociedade cresceu em injustiça, e nela infelizmente não se pode confiar, ao contrário, atemoriza. Mas a promessa era bela e justa, de que a pessoa se fartaria de tudo que a vida tinha a oferecer ao plantio e boa colheita...
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