sábado, 30 de março de 2019





                     NO REGAÇO DO SENHOR




Tempos atrás li um depoimento de Raquel de Queiroz sobre seu irmão mais velho, depoimento que nunca esqueci, de uma pessoa marcante na vida da família, a quem todos recorriam em busca de orientação e uma palavra amiga. Naquele tempo de famílias numerosas os irmãos mais velhos olhavam pelos mais novos. As pessoas de um modo geral assumiam seu papel familiar e social, sem dificuldade. Hoje ficou fora de moda, como tudo o mais de bom que existia.

Firme em seus propósitos, esse era meu irmão João Muniz, e sua irmã aqui quando bem jovem e muito esperta, aproveitava o saber do irmão mais velho, sua paciência, tudo de bom que ele encarnava. O verbo está no passado, pois choro agora sua perda. Mesmo que ultimamente tivesse pouco contato com meu irmão, mas sabia que ele estava em sua casa, vivendo sua vida em paz, com a família. Sua longa enfermidade, e agora quedo em total desconsolo com essa perda irreparável. 

           O irmão mais velho foi encontrar-se com o mais novo, que também nos deixou dois anos atrás. Tão suaves e tão dignos que eles eram! É uma bênção ter irmãos assim. Por tanto tempo, e de um jeito especial ter convivido com pessoas tão especiais, numa relação fraterna, a melhor que existe. E do jeito que são suas almas, amando, amar, como só ele, Deus os acolheu em seu regaço. Amém! 

MEUS SENTIMENTOS PRA TODA A FAMÍLIA!   


quarta-feira, 27 de março de 2019









                                    SOU FILHA ÚNICA
           






            Tiveram o primeiro filho, outro veio logo a seguir, e só alguns anos depois, chegou o caçula da família Silva. Três homens, sem uma única filha, mesmo assim, por deliberação própria, encerrava aquela mãe seu tempo de dar luz. Poucos nascimentos para uma sociedade que exigia o maior número de filhos. O casal, em especial o pai, sentiu-se em dívida para com a sociedade, combinaram que iam criar duas filhas abandonadas pelos pais, sem condição financeira, ou imaturidade. Adolescentes engravidavam e davam os filhos para adoção.

          Adotaram uma filha, depois mais outra. Cinco filhos bastava, o dinheiro não era muito e quanto maior a família mais precisava de recursos. Os pais não estavam pensando em viajar, nem amealhar mais e mais riqueza, o foco era nos filhos, a maior riqueza, o que se dizia na época. Estavam certos? Pode ser que sim, ou talvez não. De saída entender que para ser feliz depende única e exclusivamente da própria pessoa. Os filhos são criados para o mundo, eles se vão um dia, podem até estar por perto, e os pais achar que aquelas são suas crianças, ou seus aqueles jovens, o que não o são, eles têm a sua própria vida, e é bom que seja assim.

         Nada melhor que filhos realizados e independentes, muito embora estejam ao lado da família para o que der e vier. A filha mais velha casou e foi morar em outra cidade, depois o casal mudou-se para outro país. Uma certa tarde, sentada no banco do parque em frente a sua casa Maria sentiu um estranhamento. Pensou: Sou filha única, e pior, sem pais. Uma sensação de abandono, também de liberdade. Naquela terra estrangeira viu a si mesma e tudo como se fosse pela primeira vez, e era assim mesmo. Daí para frente foi de muita luta, mas de boas e definitivas conquistas, e o orgulho por tudo que enfrentou e construiu junto com seu companheiro de toda a vida. Mas ela costuma dizer que não é parâmetro para ninguém se medir, nem tampouco serve de exemplo para quem quer que seja.   

terça-feira, 26 de março de 2019





CONTO
                   

                            TEMPO, TEMPO, TEMPO!



       

É preciso falar de amor, da felicidade que proporciona, desses amores que fazem o coração transbordar de alegria, que enche a alma de satisfação. Há cobranças nesse sentindo, assunto que Edelvais  estava tendo a ideia de abordar em seu próximo texto, foi então que pensou na sobrinha Clotilde, universitária de psicologia, que chegou logo a seguir, atraída pela força do pensamento da tia. Apreciavam trocar ideias uma com a outra. Nesse dia o diálogo foi o que segue:
       
— Tia Edelvais, como a senhora costuma fazer, estive pensando na sedutora Eva que se deixou levar pela conversa da serpente e levou Adão à desobediência, o casal acabando expulso do Paraíso. Virgem Maria, a nova Eva, recebeu de José compreensão para seu estado de gravidez. Situações que se equiparam, não é mesmo tia? Dizem respeito ao exercício do amor e também da fé mística. E eis que a modernidade faz surgir uma nova mulher, na realidade, anterior às crenças, fera na tocaia para avançar na presa.
      
Era a deixa para uma troca de ideias, que a tia não se fez de rogada:
     
— Um segredo, o amor vem de Deus e Ele nos fala: “Estou aqui”. Tudo no universo diz algo, e ainda mais, fala de amor. A vida é amor. Movimentos e encantamentos da natureza para serem depurados com o amor pelo ser humano. Ora é dia, ora é noite, e tem a chuva que cai para molhar o chão ressecado e refresca a tarde quente. Tem as nuvens no céu azul anil e tem o sol em seu esplendor de luz até que se ponha, dando lugar ao espetáculo das estrelas, e por aí vai. 
      
— Sim, tia Edelvais, se estamos aqui temos que aproveitar, mesmo sem entender as razões, e tudo que existe tem uma razão de ser, não é diferente do amor que sentimos. Como disse o sábio Pascal e virou lema, o coração tem razões que a própria razão desconhece. O amor move o mundo, também o ódio, que é seu oposto. A natureza parece indiferente, ou condescendente, ao ser racional envolvendo esse pródigo planeta, de nome Terra, que usa e abusa da hospitalidade. Mas pode acontecer uma radical reação aos abusos.
      
— Clotilde, é como se tivéssemos um rico armazém abarrotado de produtos para serem por nós consumidos, a todo momento sendo o estoque reposto, para manter o nível ideal, e nunca nos faltar nada. Mas que não falte amor nos corações humanos, às vezes tão desumano. Nunca se esgote o amor, a fé. Seja eterno o nosso tempo, tempo, tempo de amar. Até mesmo se estique o tempo, que sempre dá tempo de ser feliz.  
       
A tia Edelvais tinha acabado de falar, quando a sobrinha recebeu um telefonema do marido avisando que ia sair mais cedo do trabalho e vinha apanhá-la para pegarem um “cineminha”. Era um filme de amor como ela gostava, só que ele não lembrava o nome. Clotilde resolveu aproveitar para dar um aviso carinhoso àquele homem especial:
      
— Querido, não percamos tempo!


sábado, 23 de março de 2019





                        DA EVOLUÇÃO  




Os cientistas buscam o elo perdido da evolução, se for encontrado pode desvendar o segredo da ancestralidade humana, ou seja, saberemos como evoluímos de animal para ser humano, racional, emocional, espiritual. Diferente dos outros animais, o homem interage adequadamente, ou não, com a natureza e com os demais viventes. Em  relações afetivas, e, o que é melhor, em alianças duradouras, homens e mulheres se unem com vistas à procriação, à uma vida em comum. Daí surgem as famílias e organizam-se as sociedades, na comunhão de ideais e interesses. 

Alianças são feitas por interesse os mais diversos, e tem os laços afetivos que, simplesmente, acontecem entre pessoas que se admiram, se curtem. O homem civilizado não raro faz e rompe seus laços com facilidade incrível. Evoluir significa preservar a vida e respeitar as alianças. No mundo das redes sociais, das "amizades" na internet, as pessoas, ou suas figuras na tela do computador, surgem sem pedir licença e somem sem se despedirem. Sofisticação de uma necessidade primal da relação entre os viventes, mas que sejam níveis que se possa tolerar. Há vigias de plantão no computador, até 24 horas do dia. As intenções nem sempre boas, essa a verdade.  

              Os afetos são elos da nossa evolução, sendo de importância capital não perder, nem deixar que se partam os laços afetivos, que nos fazem evoluir. Conservar os laços, não deixar que se percam os afetos, faz parte da sobrevivência de uma espécie rara, e que mereça o nome de humana. Canta Tim Maia, com aquele seu vozeirão: Me dê motivo para ir embora. É o lamento de quem está prestes a romper com um amor, no caso perder um elo da própria evolução.  Elo perdido, elo procurado, sob pena de se penar no deserto, sem água (ou sem amor), que é a fonte da vida.  Dê motivos para o amor ficar!


quinta-feira, 21 de março de 2019






                 AOS MEUS PAIS






Recordo meu pai e minha mãe com carinho e nenhuma mágoa, não poderia ser diferente. De nome José, meu pai ganhou, de saída, um especial protetor, São José, esposo de Maria e pai de Jesus, meio caminho para a vida dar certo, ainda que não tenha sido fácil. Era um bem apessoado rapaz de olhos azuis, disso meu pai não tendo consciência, mas o que não passou despercebido por minha mãe. O mais importante de tudo é que meu pai era uma pessoa que sabia ser impor,   visto com simpatia pelos familiares e amigos. Nunca roubou, matou, nem foi malandro, jamais acusado por abuso sexual, como acontecia sem ser crime.

Olhando para trás acredito que meu pai teve um histórico de frustrações, assim como quase todos os jovens da época, quando os pais não davam “moleza” aos filhos. Nascido numa família interiorana abastada, era o mais velho de dez irmãos. Sem grandes estudos muito cedo teve que ganhar o próprio sustento, não com um emprego público, ou exercendo profissão conceituada, médico, por exemplo, mas atrás do balcão, e atividades afins no comércio. Pouco, ou nada paradisíaca a vida dentro do lar, e aos expulsos do paraíso mais dureza aguarda a vida fora. O coração duro do meu pai sem incomodar muito a família.  

Sair do interior para estudar, ou batalhar na cidade pelo pão de cada dia era comum a muitos jovens, pior hoje sem trabalho garantido, e ainda faltando o consolo da fé. Sendo meu pai o mais velho teve a incumbência de encaminhar os irmãos no comércio, o que fez sem grande sucesso. Mas todos livres da pobreza, endêmica em terras maranhenses. A maior sorte de meu pai acho que foi casar com a pessoa certa. Sorte do marido, e azar da mulher, o que podem dizer, mas não é verdade. Minha mãe também teve sorte de casar por amor e gerar bons filhos. Um casal vitorioso com a família, vencidas com galhardia todas as dores que a vida lhe reservou, juntos por mais de sessenta anos. Parabéns, meu pai, parabéns, minha mãe!

Igreja de São José de Ribamar - S. Luís Ma 

terça-feira, 19 de março de 2019


CONTO



                                         EM DOSE DUPLA


LAGO PARANOÁ - BRASÍLIA




              De idades aproximadas, as duas filhas de Sr. Isaque e dona Marieta também são muito parecidas fisicamente. Mas no quesito temperamento parece o oposto uma da outra, o que não são. Costumam compará-las: Maria, por ser calma, um lagoa, e Dalva, por estar em constante movimento, uma pororoca.  

                Mesmo gostando de ser como são, as duas irmãs sentem uma ponta de inveja uma da outra, naturalmente pelo que lhes falta. Ponto importante a destacar, a "lagoa" não é tão pacífica, nem a pororoca uma agitadora. Não raro se via a tranquila Maria virar uma guerreira, e a impulsiva Dalva ser a pomba da paz. Intuitivamente realizam uma espécie de compensação

             "Compartilhassem o que tinham entre si, e seriam menos radicais", comentou a madrinha das filhas dos compadres Isaque e comadre Marieta. Olga estava na casa da irmã e aproveitou para falar da vontade que tinha de dizer para a afilhada Dalva o quanto é bom dar tempo ao tempo, esperar, e nada melhor que deixar fluir a vida, pois muita pressa e agitação pode resultar em depressão. A carapuça caiu na cabeça da menina ao lado, que escutava a conversa da tia com a mãe. Berta confirmou para a irmã Olga:   

               - O que dizes é pura verdade, acho que dar tempo ao tempo ajuda as coisas se arrumarem, como deve ser.

              A madrinha de Dalva continuou a falar, que tinha vontade de dizer para a outra afilhada, Maria, que ela interagisse melhor, fosse mais participativa, e que nunca perdesse a oportunidade de fazer o que fosse preciso para seu benefício, sem descuidar de prestar ajuda a quem precisasse. 

               - Penso como você, Olga, o quanto é importante saber deliberar sobre a própria vida e não deixar que os outros levem a pessoa para lá e para cá como carneirinhos. Aqui a nosso lado minha neta, Sônia, mesmo que ainda não tenha chegado à idade da razão, deve começar a  se conscientizar.    

          - Para findar, pois tenho que ir ao oculista, ainda quero dizer que o mais importante de tudo é cada um seja felizes. Vou ter oportunidade de falar com minhas afilhadas o que acabo falar aqui.

segunda-feira, 18 de março de 2019






                       MEUS  QUERIDOS




Agora mesmo estou pensando em vocês, jovens, alegres descontraídos, para quem a vida é uma festa, também quedo a pensar nos sombrios, com aquele ar triste e enigmático. Modos atuais de ser ou parecer. Do que serve pensar em odiar Deus e todo mundo? Ou amar desbragadamente. Tristezas não pagam dívidas, assim como prazeres em excesso fazem ruga. Sabe o que mais acontece? Perda de tempo e de vida. Amargas ou doces, bem lá no fundo de suas jovens almas vocês são simplesmente jovens que têm de aprender a viver, o que não é fácil. 

Em primeiro lugar cuidar bem de si, da saúde. Depois dar a maior atenção aos afetos, mãe, pai, avós, amigos, o namorado, ou namorada. Cuidar da imagem, que não é apenas o visual, mas comportamental. Nada de preocupação em agradar os outros. Valorizar as pessoas, melhor ainda, valorizar-se. Bom ignorar os problemas, na maioria imaginários, e tem aqueles que não nos dizem respeito. O desamor, a maldade, tudo de ruim que existe, não deixem que façam de vocês gato e sapato.

Almejar o pódio é bom, melhor ainda chegar lá. Mas nunca contraiam uma dívida que não podem pagar. Sabe o que faz bem? Elaborar planos, até mesmo um plano de fuga, que às vezes temos que fugir, e para bem longe. Mas não sejam covardes, leiam livros bons, de ficção e também textos instrutivos, que não sejam calhamaços. Moços vaidosos, nada de excessos! Descuidados, caprichem um pouco mais na aparência!

Dores de inveja, ciúme, podem atrapalhar a via de acesso ao prazer de viver, prejudicam o corpo e a alma. Que tal ver as coisas com outros olhos? Os amigos que falharam, por exemplo, alguns merecem uma segunda chance. E não deem a mínima oportunidade para os inimigos de carteirinha. Mas não tenham medo, enfrentem com galhardia uma inimizade gratuita. O luxo que é amar e ser amado, não desperdicem essa chance. E o lixo que é odiar seja quem for. A sofisticação que é amar ao próximo como a si mesmo.  

Não façam drama, encarem os problemas de frente para solucioná-los,  não deixem  que temores infundados tomem conta dos seus dias. Desprezem o mau conselheiro, e do bom conselho saibam tirar o proveito. Cada minuto é precioso, não percam tempo com dissabores, e saboreiem cada segundo da vida. Há cheiros e sabores, que valem a pena experimentar, mas nunca se embriaguem, nem com os melhores vinhos. A sobriedade seja seu ponto forte, e não tenham medo de ser feliz. Saibam que o melhor prazer fora de casa não se compara com estar ao lado das pessoas que amamos no recesso do lar. 

             Disse o papa Francisco: Jovens, trabalhem por um mundo melhor!