conto
CONVERSA DE IRMÃOS
Da
Luz via sua irmã mais velha sempre apressada, um dia falou-lhe:
— Da
Paz, você corre o tempo todo de um lado para outro. Se eu tenho pressa na vida,
é para ficar quieta dando asas à imaginação.
—Verdade,
mana, você é a calma em pessoa, mas penso que deve arder por dentro, o que
acontece com as pessoas imaginativas, não é mesmo?
— Sim,
e não. Sinto prazer em pensar e gosto de escrever, e na minha idade, assunto
não me falta. Sem medo de ser criticada coloco para fora as lembranças, dúvidas, dores e alegrias. Criar é
tão gratificante, sem ambição de estourar como escritora. Não tenho alma de
artista, guardada as devidas proporções, como diz o
filósofo C.K Chesterton, “o artista pode
ser comparado a terrorista, que joga uma bomba, pois prefere um grande momento,
a todo o resto”.
A
irmã, por parte de pai, de Maria da Luz continuou a questionar:
—Embora
tenhamos afinidades, somos diferentes em algumas coisas. Não sou propensa a
devaneios. Tenho dificuldade em pôr para
fora meus sentimentos, e vejo você, minha irmã, ri e chora com uma facilidade
incrível. Difícil alguém me ver às gargalhadas ou banhada em lágrimas.
—Já
reparei, Da Paz, que você é igual a tia Elza. Nunca vi essa tia demonstrar sua tristeza,
nem alegria, mesmo que haja motivo. Sempre altiva e ativa, médica dedicada, profissão que requer certa frieza.
Naquele
mesmo dia o irmão mais velho chegou perto das irmãs, querendo surpreendê-las, a
ponto de assustá-la. Antes de dizer a que vinha, perguntou-lhes:
—Como
vocês estão, Maria e Maria? Fiquei curioso com a conversa das duas. Maria da
Paz respondeu:
—Vamos
bem, obrigado, como sempre. Agora mesmo encontrei Maria da Luz absorta em seus
pensamentos. Pensar, no mínimo, ajuda a passar o tempo, faz o mundo parecer
menos árido, e vida parecer mais interessante. Mas não tenho paciência para ficar
imaginando que a terra é plana, em vez de redonda, por exemplo.
Sem
mais delongas o irmão falou:
— A
propósito, tenho uma incumbência para vocês, quero que uma das duas fale com
sua cunhada, para que ela deixe de se preocupar, eu não vou mais chegar
atrasado para o jantar. Meus amigos que arrumem pretexto para ficar longe de
casa. Ainda com perigo de me deixar levar pelo prazer da bebida, tenho que parar. Sinto
remorso desde que Helena caiu e quase morreu. Fiquei com uma pergunta engasgada:
“Se minha companheira desaparecer, o que será de mim? Ficaria muito solitário,
e não tenho dom para a solidão”. Da Luz rapidamente respondeu:
— Mano,
você parece que está com pena de si mesmo, e menos preocupado com sua mulher. A
solidão é dura, mas a gente se acostuma. Pior é o remorso pelo mal que se faz,
isso para quem tem sentimento. A falta de atenção, principalmente a bebida, já
destruiu muitos lares, faz sofrer a família. Vamos, sim, falar com sua mulher.
Podemos acreditar em sua promessa?
O irmão
ficou calado, enquanto Da Luz dava asas a sua imaginação: “Nada como um dia após
o outro... Ia criar uma linda história de amor para o casal, que fosse verossímil”.