quarta-feira, 16 de setembro de 2020
segunda-feira, 14 de setembro de 2020
EVA E FAUSTO
Eva parecia a única pessoa no mundo que não tinha com que se aborrecer, sem motivo aparente para ficar triste. E nem chorar conseguiu naquele dia, diante do marido a lhe dizer que ia embora. Ela sabia que o casamento exige renúncia, paciência, o que desde cedo aprendeu com os membros femininos da família. O irônico da situação é que o casal parecia perfeito, mas o caso acontecia quando ainda estavam em lua de mel, e ele resolveu por brincadeira exibir fotos recentes com amigas na cidade vizinha, onde trabalhava, e pretendia morar após o casamento.
Irritado com o ciúme da mulher, Fausto saltou da cama e dirigiu-se para a porta, que abriu num rompante e saiu. Mesmo estupefata, Eva simplesmente virou de lado e dormiu. Tinham acabado de deitar, ela ainda exausta com as provas de fim de ano, estudos que concluíra com louvor. Mais duro ainda o trabalho que tivera com os preparativos do casamento e sua realização, dois dias antes. O sono profundo, só acordou no dia seguinte. Viu que o marido não estava na cama. Teria sido mesmo abandonada?
Não demorou muito o recém-casado surge com passagens de ônibus para um passeio turístico, distante alguns quilômetros do centro da cidade. Partiram em silêncio, e assim que chegaram à praça central de S. José de Ribamar chamou-lhes atenção o brinquedo gigante ali montado, de aparente inocência. Um surto de alegria infantil, e logo estavam cada um sentado na sua cadeira, presa por longas correntes ao topo de um mastro. Motores ligados, não demorou veio a surpresa, voavam nas alturas, sem a menor segurança, apenas as mãos segurando o braço da cadeira.
Findaram o passeio na igreja para agradecer a graça de estarem vivos e jurarem mais uma vez amor eterno. Aquele momento de susto que experimentaram teria selado o compromisso assumido ao pé do altar. Iam viajar na madrugada, um apartamento novinho em folha os aguardava, bairro nobre, alugado ao noivo pelo construtor e colega de direito, proprietário do lindo prédio de dois andares, ainda vazio. Coube a ele escolher o melhor, de frente e no nascente.
Nem tudo são flores, há as pedras no caminho. Àquela moça sempre foram dadas oportunidades de uma carreira profissional, mas ela optou por casar, certa de que havia encontrado o homem dos seus sonhos. A vida guarda não apenas boas surpresas, também ruins. Os filhos não vieram como previsto, nem viriam jamais, a certa altura parecia que ambos tinham perdido a vontade de tê-los, satisfeitos com sucesso profissional que obtiveram. A mulher resolveu continuar os estudos e o bancário realizar seu sonho de juventude, ser médico.
O tempo passa, já estavam morando numa bela residência, construída do outro lado da ponte, para onde a cidade cresceu, os empreendimentos valorizados. Fausto especializa-se em pediatria. Os filhos não lhe saiam da cabeça. Seria ele o culpado por não tê-los? Melhor conferir, e o fez com a engraçada enfermeira, que sempre encontrava no plantão. Nasceu o primogênito, e veio mais outro, mas com outra enfermeira. Esses últimos fatos narrados pela atendente do consultório do Dr. Fausto ao amigo, que veio visitá-lo, depois de longo tempo sem se verem. Ela concluiu:
—O
doutor é um “galinha”, a esposa aceitou apenas o segundo filho, afinal da
primeira decepção ninguém perdoa. Há pouco tempo dona Eva comunicou ao marido
que ia deixar a casa. Alegou que os pais
estavam precisando dela na fazenda, ia cuidar deles e dos negócios da família. Ele
ainda tentou conversar, mas parece que já não havia um bom clima entre os dois, ou nunca houve.
Um círculo que se fecha, a serpente mordendo a própria calda, vocês não acham, caros leitores?
sexta-feira, 11 de setembro de 2020
quinta-feira, 10 de setembro de 2020
PALAVRAS AO POR DO SOL
Sem ser tirana, nem indulgente comigo mesma, eu
decidi viver feliz esse meu tempo presente, envelhecer na claridade do sol, que ilumina o dia, também
na alegria pela noite de céu estrelado. E para aquecer e colorir o cinza do dia
frio decidi cantar. Decidi viver a serenidade dos meus dias maduros, e não ser uma pessoa amarga. Resolvi com gratidão sorver mais e mais o
aprendizado e não esquecer as lições ao longo da caminhada. Por amor incondicional
a mim mesma, resolvi sentir-me isenta de qualquer falta, que por acaso tenha
cometido. Bom é sentir o quanto fui generosa com quem convivi, atente com as pessoas que precisaram de mim. Na velhice não seria diferente. Dívidas tenho, sim, com minha mãe, o muito que lhe devo. Venho de um tempo antigo, mas meu tempo é hoje,
e eu decidi, como sempre, fazer tudo para não me sentir mesquinha, infeliz. Cada dia é um doce
e claro amanhecer para a vida. E ao por do sol, nada melhor que refletir e escrever.
quarta-feira, 2 de setembro de 2020
terça-feira, 1 de setembro de 2020
CONTO
Assim que as quatro amigas se sentaram à mesa do Café houve sucessivos comentários, as mesas afastadas e outras alterações feitas no local, como o álcool gel para ser usado pelos fregueses. Agosto é um mês terrível em Brasília, a natureza devastada pela seca, o ar quase irrespirável, inclusive pelas queimadas. Dava uma certa indisposição, o melhor a fazer é beber água.
O último encontro que tiveram foi numa recepção de casamento, seis meses antes. Os felizes nubentes, bem como as famílias envolvidas no enlace. Há sempre esperança no amor que une um casal, que sejam felizes ao compartilhar a vida. Casamento está sempre em pauta. Maria havia feito o convite para o encontro e falava para suas três amigas Rosinha e as irmãs Cleide e Cleonice.
—Minhas amigas, que bom voltarmos aos nossos encontros depois de seis meses de pandemia, agora de máscara, o mal ainda não debelado, falta a vacina. Ponho fé na de Oxford, e já disse que só tomo a vacina que a Rainha tomar, kkk. Cleide fala a seguir:
— Estive pesando no caminho para cá, que há pessoas em suas atitudes que parecem ter em mente contrariar o oponente. Intuito bobo, para dizer o mínimo, quando o normal é a lealdade, em primeiro lugar, para com os próprios sentimentos. Evitamos assim dissabores presentes e futuros. Vocês não acham?
Maria aborda um assunto sempre em pauta, o casamento:
— Há cerca de vinte e cinco anos casei com o Paulo, em momento de crise matrimonial dos meus pais, o que pode acontecer após alguns anos de união, o casal começa seus questionamentos. Parecia estratégia minha para fugir dos problemas familiares.
Cleonice acrescenta:
—Há maridos que saem de casa para vivenciar outro amor, ou experimentar uma aventura, o caso do meu pai. Alguns voltam, outros se vão para sempre, o que é muito triste, principalmente para os filhos, até mesmo uma tragédia. Mas nada como um dia após o outro.
Rosinha lembrou-se de quando foi para as Bodas de Prata de uma tia querida em outra cidade, e ainda convidada para madrinha de Consagração da sua netinha:
— Tinha uma defasagem no meu currículo, de repente, duas vezes madrinha: do casamento da prima e ainda madrinha de Consagração da filha da outra prima. E ainda havia a oportunidade de trabalho na cidade grande. Por lá fiquei. Não me deixei levar pela maldade de quem disse que eu havia abandonado meus pais, e até querer morrer por isso. Ao contrário, seria uma atitude mesquinha sentir-me infeliz. Promessas que a vida nos faz e temos de aproveitar.
Já era tarde, quando ao pé da escada as amigas se despediram, todas iam voltar para suas casas, dar continuidade às restrições ao convívio. Maria havia percebido que seu coração não era a único deveras insatisfeito, todos feridos com a pandemia, se não era pela perda de algum parente, ou amigo, por outras perdas. Havia a sensação que a vida não seria a mesma dali por diante. Cleide mostrara-se muito alegre, mas parecia haver um grande esforço de sua parte em afastar o ressentimento com o fim do seu negócio. Cleonice estava a se reinventar, afeita a restaurar os ânimos, os docinhos com o café ajudaram.




