quinta-feira, 7 de julho de 2022

 


                                                 O ANTIGO E O NOVO

 

 

 DOCE LEMBRANÇA DA NOSSA ANTIGA CASA EM JOÃO PESSOA

Notórios os avanços do século passado, que promoveram uma avalanche de mudanças nos costumes, algumas boas, outras dignas de pesar. Já agora, no século XXI, estamos pasmos com as novidades. Penso nesse nosso mundo atual tão venerado pelos moços, que aos mais velhos é facultado julgar.

As coisas hoje divididas em úteis e inúteis. Útil só o que se compra nas lojas e supermercados. Considerada inútil, a fé míngua nos corações, que se ressentem da falta. Também a esperança é classificada  como inútil, quando se vive em função do aqui e agora. E sem caridade o que reina é a pobreza de espírito.

Bens que eram cultivados no passado estão sendo relegados, como se não tivessem mais espaço no mundo. A moral, ferozmente desafiada, leva a sociedade a uma situação doentia. E o quanto é ruim para o ser humano perder em essência. Certo que o passado não era nem de longe perfeito, mas havia ali um esboço de nós mesmo como seres humanos ideais, ainda que rudimentar.

Tragédia das maiores é ficarmos de vez sem a consoladora fé, sem a catártica esperança, sem o sentimento da caridade. Olharmos em torno e ver um vazio. Aperta o coração despedir-nos da boa e antiga maneira de viver. A voz da atualidade a bradar nos ouvidos: “Regozijemo-nos com o presente!” Quando na verdade vive-se um tempo conturbado. Mas ainda dá para  acreditar em um mundo futuro despido dessa maldade, leal aos princípios humanos e cristãos.   

Bom imaginar o homem transbordando energia e significado, que confidenciará à mulher:

— Faço o necessário para ser um homem de verdade. E você, minha amiga, quero parabenizá-la pela mulher que se tornou. Continue a seguir adiante, valorizando sua independência, preservando sua lucidez.

Por sua vez, expõe a mulher sua interpretação sobre a figura á sua frente, representativa da alma masculina:

—É como o vejo, meu amigo, em sua graciosa mocidade;  bom moço, na tentativa de se apresentar bem. Mas deixe de fingir que tudo vai bem, ou achar que tudo vai mal. A vida não é um mar de rosas, e nunca foi;  frustração aqui, decepção acolá, sempre  vai acontecer, não deixe que perturbem nossa vida.

Uma mocidade que ri e se diverte, parece que estão todos tremendamente alegres. Contudo sentem-se constrangidos. Expressam seus  sentimentos, para que morra o silêncio entre eles, o que é ainda mais constrangedor. Palavras ditas com confiança calam fundo na alma, e possa a mocidade atual seguir em frente mais conscientes das suas posições.

  

 


sexta-feira, 1 de julho de 2022

Alexander Malofeev plays Rachmaninoff: Lilacs Op. 21 No. 5

 


             

                                VIVA SÃO JOÃO!

 

 

S. LUÍS - MA



 

Havia ocorrido outras vezes, Alice sentir o coração bater mais forte,  e ter o pressentimento de que algo está prestes a acontecer. Há dois meses hospedada na casa dos tios no Rio aguardando o trabalho prometido. Antes de dormir, começa a escrever para a mãe, pega no sono, por poucos minutos. Ao abrir os olhos vê diante de si o irmão Joaquim, tal qual um fantasma substancial.

Tantas vezes imaginou que ele já vinha, promessa feita antes de se separarem. E ele chega com uma surpresa, foi o que disse, após efusivos abraços. Já na sala de visitas Alice é apresentada à jovem ao lado dos tios. O irmão casara duas semanas atrás. Explicou que não quis deixar a amada para trás ao ser transferido do BB em Barra do Corda para a agência de S. Paulo capital. Noivado e casamento ao mesmo tempo. Passou para ver a irmã.

 Alice deixa escapar:

— Que mais de terrível pretendes fazer, meu irmão, depois de nos assustar desse jeito?

Um sorriso característico foi esboçado pelo recém-casado que já está de mãos dadas com a esposa. Findo o jantar, Mariana é convidada a subir com a tia para olhar o aposento que fora reservado ao casal. Joaquim aproveita para sentar-se ao lado da irmã e ter com ela uma conversa amigável:

— Pareço um homem casado e chefe de família?

— Não muito. Estás é mais cheinho de corpo, mas continuas o mesmo, sempre aprontando.

— Ora Alice, fracamente, precisas me tratar com mais respeito – disse Joaquim, que não deixava de ter algum receio do que vinha pela frente, mas o que estava feito, estava feito. E continuou:

— Casei para ter minha própria família, da qual irei cuidar. Não tive a menor dificuldade em dizer para Helena: “Vamos nos casar agora mesmo, e sermos responsáveis pelo nosso destino”. Era o que ela também queria.

— Não acredito que estejas casado. Amadureceste cedo, e como adulto, nada melhor que  ser responsável pela própria vida, e já tens teu ganha pão e uma família para cuidar, logo virão os filhos. Nada é fácil na vida, mesmo com todo o amor envolvido casamento não é coisa para amadores. Tens consciência disso? Espero que as coisas não mudem muito entre nós, tu podes ser mais velho, mas sendo homem, és menos sentimental. Sinto-me sozinha às vezes, mas ouso dizer que é até bom que seja assim, a gente se fortalece.

— Podes acreditar que o meu sentimento é ainda maior para com meus entes queridos, os familiares. E quanto a ti, querida irmã, sempre serei teu amigo. Certo ajudarmos uns aos outros, aos que precisem de nós. Juro que nunca ficarás sem o meu apoio. Sei que estás de namoro firme, e nossos parceiros não nos julguem mal, pensando que somos crianças mimadas. Mas é o que queremos ser, mimados. Agora é esperar que minha irmã e minha esposa sejam boas amigas. Podemos visitar-nos com assiduidade, morando em cidades vizinhas.

— Posso soltar foguete nesse São João. Viva São João!

—Viva São João!