quarta-feira, 6 de maio de 2026

 


 

 

 

                              PARIS E O MUNDO


BUSTO DE LA RAVARDIÈRE, FUNDADOR DE S. LUIS MA


 

Que a capital da França é uma cidade de grande beleza ninguém pode negar, com sua arquitetura, seus palácios, museus, catedrais, e tudo o mais, a demonstrar tudo o que foi, e ainda é, o centro do nosso mundo ocidental. Antes de Napoleão, nos reinados dos Luíses, o maior deles Luís XIV, conhecido como Rei Sol. Amada pelo poeta português Fernando Pessoa que amorosamente decantou Paris, a servir-lhe de inspiração para a criação do seu personagem/heterônimo Jean Seul dos seus poemas em francês. Todavia, seu conterrâneo e contemporâneo, o poeta e político Guerra Junqueira, no poema “Raça” presente no livro “Pátria”, de 1896, trata a célebre cidade francesa da  seguinte forma: “Paris é uma velha meretriz devassa,/ magra coquete que estrebucha e dança /sobre o cadáver da latina raça...” 

Os dois expoentes da poesia portuguesa em polos distintos quanto à chamada Cidade Luz. Ressalte-se que não haveria conotação racista no realismo de G.J, sendo o poema uma crítica visceral à resignação e decadência do povo português, e serviu como panfleto republicano contra os dois partidos monarquistas à época. Já F.P. é um poeta cuja poesia reflete seu espiritualismo. Sempre Paris, e quando C.G. Jung esteve naquela capital, no início do século XX, fala que viu uma cidade dividida em duas: uma era a bela arte, a outra a miséria, e o quanto lhe foi desconcertante saber que alguém pudesse achar Paris divertida, enquanto ele refletia sobre Buda e havia lido Schopenhauer.

E o que hoje diriam de Paris os poetas portugueses e também o psicanalista suíço? A cidade foi sede da última Olimpíada, quando então o mundo todo, e ao mesmo tempo, através da TV, admirou a beleza que é Paris. Mas, por ocasião do evento, alguém teve a triste ideia de exibir numa de sua principais passarelas a herética representação da Santa Ceia. Os três eminentes personagens diriam que ela continua bela, mas também parece que tem a vocação para a esbórnia, no que Junqueira teria razão de criticá-la, assim como Jung. A miséria que hoje não é material, como apontou Jung, uma vez que a pobreza está menos “abismal”, mas mais abismal ainda é a pobreza moral. Paris continua a mesma. Assim como o mundo, ou as nações continuam iguais ao que sempre foram, inconsequente, hoje a debater-se em indecorosas guerras.


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