quinta-feira, 30 de julho de 2026

 


                           o pai e a mãe do céu



 

céu de brasília


Elas formam um grupo maior que as cinco amigas ali presentes para o costumeiro encontro, e nem sempre estão todas reunidas de uma só vez. Naquele dia, compareceram Maria, Carmelita, Adalgisa, Cibele e Aldenora, e Maria, que é participante  assídua. O assunto escolhido para o debate, após o lanche, é a situação cismática que ocorre na Igreja, com a consagração de quatro bispos por iniciativa particular da Fraternidade Sacerdotal Pio X, quando apenas o papa tem autoridade para realizar o ato litúrgico. O papa Leão XIV prontamente excomungou os bispos dissidentes. O confronto com Santa Sé tem graves consequências. 

O lanche, como de costumeé servido pelo dono do Café, Paulo de Assis. E após  degustarem o último pedaço da sua especial torta da maçã, sem igual em toda a cidade, como elas dizem, e também já terem dado notícias sobre suas famílias, iniciam o debate. Também chamada Igreja Tridentina, atuando em sistemática desobediêncoa à Sante Sé, e em defesa das normas do Concílio de Trento (1545-1566), quando foi fixada a missa em latim, assim como o padre celebrar a missa de costas para os fieis presentes ao ato litúrgico.

Os católicos divididos; uns a favor e outros contra a excomunhão. Adalgisa é a primeira a dar sua opinião:

 — O descontentamento dos católicos ultraconservadores  aconteceu a partir do concílio Vaticano II, promovido pelo papa João XXIII. Não quero ser cismática, mas sou da opinião que o Concílio errou ao proibir categoricamente o latim nas missas, mesmo sendo a língua usada por milênios nas celebrações, que passram a ser exclusivamente na língua local. Resultou na ira do bispo francês Léfevre, fundador da  Fraternidade. O engano foi posteriormente corrigido pelo papa São João Paulo II, que retirou a excomunhão dos bispos, e as missas desde então celebradas parte em latim, e parte na língua local. Acontece que a Fraternidade continuou a rezar a missa exclusivamente em latim, a chamada Missa Tridentina, aceita com reserva pelo Vaticano. Grave a atual desobediência da consagração  dos  quatro bispos à revelia do Vaticano. E a excomunhão pode resultar em Cisma, o que preocupa os católicos, como eu.  

Carmelita, também tem ressalva sobre a excomunhão, e dá seu aparte:

 — Acontece que atualmente restam apenas três bispos idosos desta ordem consagrados pelo Vaticano. E resolveram   confrontar com  o Vaticano, consagrando quatro bispos por conta própria, com a justificativa de que a ordem feneceria sem bispos. Alegam ainda que a Igreja, fundada por Jesus Cristo, não se constitui uma religião qualquer,  que aceita mudanças para adaptar-se aos novos tempos, nem deve seguir modernidades fora das regras milenares, até mesmo um panteísmo disfarçado, conforme o do papa Francisco. Muito menos a Igreja de Cristo deve deixar-se levar por pleitos de cunho político e social ao mesmo tempo, e a fé católica peca quanto a isso, a CNBB repleta de comunistas.

Aldenora coloca uma pergunta no ar:

— Seria apenas um debate entre tradição e modernidade?

Cibele responde sem mais delongas:

— Se é pela tradição, temos que buscar os acontecimentos na virada do primeiro milênio, quanto às mulheres. O papa Leão  XIV, certamente por conta disso, colocou-as em posição de destaque na Igreja. Tratá-las como especiais colaboradoras seria uma modernidade, mas que remete ao passado da Igreja. Destacadas pensadoras do século XII, Santa Gertrudes e Santa Hildegarda foram de especial importância para a Igreja em santidade e ciência, auxiliares diretas dos papas, com quem estiveram próximas. “Só a humanidade é chamada para ajudar a Deus. A humanidade é chamada para có-criar.”(Santa Hedigarda de Bringen – 1393 – p.116). E quanto a preocupação social da Igreja, há a encíclica Rerum Novarum, do papa Leão XIII, que trata do assunto social em profundidade, além de fazer frente ao comunismo e seu ateísmo.

 Maria, sempre presente aos encontros das amigas, adverte:

— E as atuais nomeações de mulheres para cargos importantes no Vaticano também foi motivo de contestação pela Fraternidade. As mulheres, por muito tempo relegadas a um plano inferior. Mas a Igreja católica reserva a Maria, a Mãe de Jesus, o destaque merecido pelo exemplo de santidade e sabedoria. Prova da relevância dada ao gênero feminino pela Igreja católica. Mesmo que o masculino se imponha na figura do Pai, e seu Filho, Jesus Cristo.  Não é para questionar sobre gênero, mas ter Fé também na Mãe do Céu.

Uma noite esplendorosa cobre o Planalto Central, e muito  havia ainda para elas debaterem. O próximo encontro marcado para o início do mês vindouro, com um novo debate, sobre a encíclica do papa Leão XIV, Magnífica Humanitas . E depois das calorosas despedidas  elas partem na experiência dos dias vividos, e ainda por viverem. Prova viva que o cérebro humano nunca envelhece, magnífico em sua constante vitalidade.  

 

 


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