FELIZ DIA DAS CRIANÇAS!
LIMITES DA VONTADE
Faltavam apenas duas semanas para o carnaval, com bailes nos clubes da cidade, no Rio ,como em todo o país. A tijucana Marina tinha ido ao bairro de Copacabana em busca de complementos para suas duas fantasia , uma de fada, a outra da imprescindível baiana. Devidamente trajada ia pular no salão ao som das marchinhas, que desde o início do mês eram tocadas sem parar no rádio. Compras feitas, com tempo de sobra para dar uma volta na orla, agora em companhia de uma amiga, que encontrara na Casa Slopen, também em busca de adereços para compor seu visual carnavalesco. E já no antigo calçadão, as duas moradoras da Zona Norte viam as garotas da Zona Sul a desfilarem sua elegância, em um sábado de intenso calor carioca.
Marina ia com o pensamento no baile dali a alguns dias, oportunidade do encontro com os jovens do bairro, principalmente aquele rapaz que via de longe, e certamente a convidaria para dançar, com possibilidade de namoro, e até mesmo de um futuro casamente. Era assim que acontecia, a irmã encontrara o futuro marido no carnaval do ano anterior, e já estava casada. Eis que vê um cabelo louro da cor que ela achava ideal, de um tom bem claro, combinando com a pele e beleza da jovem. Marina achava seu louro chamativo, quase ruivo, e falou à amiga que devia ter nascido bonita por ser tão branca e loura, pois o que se exige do louro é beleza, mesmo que não se achasse feia, mas podia um pouco mais bela, combinando seu tipo físico. E comunicou a intenção de, no dia seguinte, ir ao cabeleireiro acertar a cor das suas madeixas. A amiga, orgulhosa dos seus lindos cabelos negros e crespos, e muito bem tratados, não disse nada.
Dito e feito, e com o cabelo em outra tonalidade, em vez de contente, Marina estava em desgosto com o resultado. O cabeleireiro não entendera seu pedido, e agora parecia uma “barata descascada.” Sem entender que idealizara um tom impossível de realizar artificialmente, e aquela foi a cor escolhida pelo profissional. Ao descer do bonde na Muda depara-se Marina com a irmã, que acabara de chegar da lua de mel na Argentina. A recém-casada pára por um instante, para logo a esguir apressar o passo, indo em frente, na intenção de preparar a família para aquela visão. Uma chegada memorável, com a mãe já na porta à espera de Marina, que foi abraçada, ambas aos prantos, como se tivesse acontecido algo pior. Mas aquilo era, sim, um desastre para uma mãe nos anos 50.
Dianto do acontecido o pai simplesamente falou que estava sobrando dinheiro naquela família. A preocupação dele era financeira, enquanto a mãe via a situação por outro ângulo. Além de estética, a filha faltara com amor próprio, ao mostrar-se desgostosa com a cor natural do seu cabelo. Mas, àquela altura, o que faltava para Mariana era dinheiro para voltar ao cabelererio, e que o mesmo lhe restituisse a cor original, como se isso fosse possíevel no momento. Só o tempo iria corrigir o erro cometido. E errar naquela época era o que a pessoa mais evitava, a tenção devida ao certo e errado. De boa vontade a mãe prontificou-se a ajudar a filha arrependida, afinal já estava perto o baile no Tijuca Tenis Clube com as fantasias prontas para a comemoração, o que favorecia sua imagem. Brincadeiras à parte, melhor os pais estarem atentos ao perigo que ronda a juventude, os filhos sujeito a tuma gama infinita de influências, nem sempre boas, e desde sempre.
A fantasia, que aquela jovem inventara para alterar sua cor natural de cabelo, acabou por comprometer sua estética, além do respeito que ela devia a si mesma, também para com aqueles que a amavam do jeito que era, com sua beleza natural. A vontade pode ser contestada, sim, e ressalte-se o sentimento que envolve as pessoas. Ninguém está isento de errar, o que acontece quando os desejos e as fantasias se sobrepõe ao bom senso, à responsabilidade. Além do equívoco de querer impressionar, até mesmo agradar aos outros, em detrimento de si mesma. Ter consciência que não há erro na criação de Deus, enquanto as ações humanas esbarram no limite imposto pela natureza, como também, da vontade, o que envolve o bom senso. Parece exagero, mesmo assim, reflete a realidade humana, e se evite a maldade que ronda os jovens no dia de hoje, e uma simples mudança de cor do cabelo aponta algo a ser averiguado. Há correções a serem feitas, lógico, e dizem respeito à educação, alguns defeitos a serem corrigidos, o que tem de ser bem avaliado, e seja boa a evolução de cada um.
Hoje maiores as imposições da vontade, também maiores as frustraçoes, foi a conclusão de Marina ao recordar o passado, após 70 anos.
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