segunda-feira, 17 de março de 2014




                                     O  QUE SERIA  DA  POESIA


                                                         Murilo Moreira Veras



O que seria da poesia,
se não fossem as flores, o desabrochar do campo,
As folhas secas no caminho.
O que seria da poesia,
se o amor não louvasse a alma,
a brandura das mãos não amanhecesse
No dia de sonho.
O que seria a poesia,
se o poeta não decantasse a vida, a natureza,
uma cachoeira de sonhos.
O que seria da poesia,
se o horizonte não cruzasse com os olhos
da eternidade, fundidos em esperança.
O que seria da poesia,
se o poeta, na sua insânia denunciativa
não perfurasse o caminho errado da vida
E dos homens.
o que seria da poesia,
Se o céu não abrigasse sua ternura edênica
para a assertiva lírica do poeta.
O que seria, enfim, a vida,
sem a poesia, o cântico das entranhas madrigais
dos loucos vates, de antanho e de hoje,
pelas ruas, calçadas, cafés, bares,
Até encontros acadêmicos.
O que seria o mundo sem a poesia?
– um grande vazio, uma saudade perdida

nos escombros da vida.





 Alegres Campos, Verdes Arvoredos
              
                                                        Luís Vaz de Camões






Alegres campos, verdes arvoredos,

 Claras e frescas águas de cristal,

 Que em vós os debuxais ao natural,

 Discorrendo da altura dos rochedos;



Silvestres montes, ásperos penedos,

Compostos em concerto desigual,

Sabei que, sem licença de meu mal,

Já não podeis fazer meus olhos ledos.



E, pois me já não vedes como vistes,

Não me alegrem verduras deleitosas,

Nem águas que correndo alegres vêm.



Semearei em vós lembranças tristes,

Regando-vos com lágrimas saudosas,

E nascerão saudades de meu bem.





Comentário de Murilo Carlos Veras.



Diz Aristóteles que a percepção que naturalmente mais agrada aos homens é o visual, mas a percepção “auditiva”, o saber ouvir e compreender, é que permite melhor alcance das coisas universais e perenes.

O homem facilmente se vislumbra com a grandiosidade e solidez de montes majestosos, com a delicadeza de verduras deleitosas e a rapidez e fluidez de águas cristalinas; ou se atemoriza com a aspereza e inconstância de campos agrestes e rudes penedos.

É da fraqueza de meu eu vacilante que brotam percepções de inconstância, veleidade e superficialidade, são percepções que fazem meus olhos ledos, que se desmancham nas primeiras provações, nas vicissitudes da vida.

É da robustez do nosso eu mais interior que emergem atitudes universais de serenidade, coerência e firmeza.

Por entre a dissipação das coisas sensíveis, superando-as, o nosso ser interior ao poucos carrega e transmite, ainda que entre lágrimas, fontes perenes de fidelidade, persistência, fortaleza e nobreza.

É daí que podereis “ver” as verdadeiras fontes, as autênticas lembranças, de um bem maior que um dia se revelará em frutos de saudade interior e eterna.


Intervenção de Murilo Moreira Veras.  

Este soneto de Luis de Camões é pouco conhecido, nem por isso perde em perfeição e agudeza de espírito, virtudes naturais dos grandes sonetistas e escritores, como, por exemplo Shakespeare, Dante e nosso Raimundo Correa. Tua interpretação está simplesmente impecável, sensível, maravilhosa. Talvez eu não fizesse melhor. Foste ao âmago da mensagem transmitida no soneto, que é a volatilidade do ser, o ser-em-si heideggeriano, onde as coisas são essencializadas, em estado puro, o interior do interior, a grande aventura do estar-no-mundo. Direi mais, porque, na realidade, tua exegese vai mais além, busca o chamado "estado d'alma", tão utilizado pelos poetas, muitas vezes desconhecido pelo leitor apressado, que não  sabe ler "nas entrelinhas", apenas atentando para o léxico superficial das palavras e o que elas linearmente querem dizer. De certo modo, tu procuraste, no teu magnifíco texto, desvelar a alma, na sua plena caminhada pelos desvãos do mundo e da vida. Quando a alma está pura "os campos são alegres, os arvoredos  ficam mais verdes, a água corre cristalina pelos vales", mas é preciso manter a alma, assim, sempre pura, posto que, contaminada, toda essa visão celeste se desfaz, como diz o poeta dos Lusíadas: "semearei em vós lembranças tristes" e depois só fica a saudade representada pelas lágrimas que só a bondade permite contemplar. Este soneto espelha o cristalino da alma, sua imortalidade, a infinitude do ser cósmico.
Parabéns!





Murilo Moreira Veras <cdletras@gmail.com>
17 de março de 2014 15:18
Para: Murilo Veras <veras.murilo@gmail.com>


Danubio Azul. Concierto de Año Nuevo de la Orquesta Filarmónica de Vien...



FESTA DE DEBUTANTES DE 1953 NO GRÊMIO LÍTERO MARANHENSE. MINHA ETERNA GRATIDÃO AO MANO CHICO POR SER PARTE DA MINHA HISTÓRIA E POR SUA ESPECIAL COMPANHIA NA VALSA DOS MEUS QUINZE ANOS. 

sábado, 8 de março de 2014

                                                         
Homenagem ao Dia Internacional da Mulher - 8 de março


                                   
                            

                       







                     

                AMÁLIA E SUAS IRMÃS


                                                              conto


  1.     Diderot havia declarado do alto do seu iluminismo no século XVIII: “Tudo deve ser sacudido, sem exceção e sem timidez”. As três irmãs, Maria Carolina, Maria Judite e Maria Amália, meio burguesas, meio aristocratas, até certo ponto românticas, não se deixavam atingir pelo iluminismo redivivo da época em que viviam, meados do século próximo passado. Rebeldes a maneira delas; mais pacíficas que amorosas. Acompanhavam de longe e com simpatia, diga-se a bem da verdade, a revolução feminista, mas sem se disporem à ceder aos instintos. Os românticos, nostálgicos da aristocracia, zombavam dos burgueses por gozarem seus prazeres – se por acaso os tivessem – de modo muito criterioso, soberbos e sóbrios até no vestiário. Não queriam, isso sim, ficar à mercê do destino, revidava a burguesia, que dera largada ao progresso econômico da produção e do consumo. Mas tornou-se uma classe de acomodados e pacatos partícipes da evolução dos costumes, voltavam as críticas. Recebiam tréplica, as exibições eram coisas para os emergentes burocratas corporativos, que almejavam ascensão social de qualquer jeito. A burocracia que viria a ser útil ao processo de consolidação das instituições, e se impunha, como a burguesia, mais para o bem que para o mal.
  2.          Tempos das cabeças femininas na janela, o local mais público onde as mulheres podiam se deleitar em ver e serem vistas pelos homens. Tantas calças masculinas pelas ruas, que elas iriam usar um dia, e nem desconfiavam o quanto, assim como adotariam o trabalho fora de casa. Só eles saíam da casa para trabalhar e se divertir no Brasil. No início dos tempos modernos, no século XVII, Jan Vermeer retratou as mulheres perto das janelas; abertas, semiabertas, ou fechadas, o olhar voltado para fora, enquanto liam e escreviam cartas. Moças que tinham suas atividades cotidianas restritas ao ambiente privado, isso até meados do século XX para a maioria das mulheres. Já em Paris as mulheres desde os fins do século XIX podiam ser vistas em público, “saídas”, como no quadro O Primeiro Passeio, de Auguste Renoir. Com a industrialização elas passaram a ser arregimentadas para o trabalho, as operárias, filmadas por Lumiére, saindo apressadas do trabalho, o que o público assistiu estupefatos em 1895, o primeiro filme produzido no mundo, A Saída da Fábrica. Acontece que em 1857, em Nova York, operárias haviam morrido carbonizadas dentro da fábrica de tecido onde estavam reunidas em greve por melhores condições de trabalho. Incêndio criminoso, cuja data passou a ser comemorado como “Dia Internacional da Mulher” a partir de 1910 por recomendação da ONU. 
  3.       As três Marias não eram janeleiras, nem alienadas, tinha plena consciência do que acontecia no mundo e pensavam em melhores dias para as mulheres, que sofriam privações, sem trabalho e mal assistidas, mesmo perseguidas. Todas sofriam o descaso para com o gênero feminino. As duas mais velhas logo casaram, ficou Amália que foi em passeio ao Rio, nossa Paris, para "arejar' a mente. Se brigavam entre elas, era sem relevância, e nunca recorrerem às lágrimas, o que seria fraqueza humana, nem se dobravam aos instintos. No século XIX o burguês Darwin, que marcou o mundo com sua teoria da evolução, alertou sobre a competitividade, típica dos seres humanos, possuidores de egoísmo e crueldade inatos. E a burguesia, que teria domado seus instintos com a educação e também - diziam seus detratores - com muita hipocrisia, via o mundo moderno se movimentar, ou correr para novos tempos. O progresso avassalador num mundo que logo entraria em crise, descrente de Deus e ao mesmo tempo em guerra com a razão. A Segunda Guerra fez a humanidade viver uma barbárie sem tamanho, a do nazismo, o que havia sido previsto pelos evolucionistas ao tentarem prevenir a consumação de tais catástrofes. Darwin... Rousseau...! As irmãs Dias eram reticentes com as elucubrações do Dr. Filogônio, médico e amigo da família. Achavam por bem guardar distância desses ateus, com medo de suas ideias, que podiam contaminar o espírito cristão. Todavia, possuíam uma fé religiosa sem grandes entusiasmos; mais prosaicas e humanistas que poéticas e sublimes. Da religião admiravam seu lado ético e estético.
  4.        Teve aquele rapaz simpático, recém-chegado da Europa, tão tímido quanto culto, apresentados por amigos, com quem Amália, que já havia rompido um noivado por falta de fidelidade do pretendente, conversava sobre a vida, sobre no mundo. Os pais dele portugueses, como os dela. Uns poucos encontros, e de repente Nestor some de vista, só restando aquele retrato dos dois em passeio pela Praça da República no Rio, o que excitava a curiosidade da sobrinha-neta, que insistia para ela contar um pouco sobre aquele retrato, imaginando muita coisa por conta própria. O certo é que depois dos dias ao lado do amigo, quase namorado, o rapaz volta para o velho mundo, o que Amália soube por terceiros, que ele ia cumprir nova missão intelectual, e nunca mais se veriam. Nestor não tinha espaço a ceder, atarefado em sua criação literária, que a amiga lia de relance, pouco interessada em poesia, mas querendo se interessar. Quanto ao poeta, ele teria lastimado por aquela alma inculta e tão ingênua, quase a desprezá-la por isso. Teria resistido a ter a alma violada por aquele poder feminino? Amália, nada romântica, inofensiva, estava mais preocupada com a família e a guerra, o sobrinho aquartelado, a quem ela visitava para saber o estado de saúde do jovem, que escapou do pior, ir para o front, a guerra chegou ao fim sem sua participação. Quanto a Amália e Nestor, nunca eles tiveram um gesto maior de aproximação mais íntima um para com o outro. A moça, mais esperançosa, não ficou desiludida, desde o início adivinhando o que estava escrito em algum lugar para eles, o destino de solteiros a vida toda. O destino era brabo naqueles tempos...
  5.        O romantismo de Amália e suas irmãs poderia ser classificado como racional. Jamais seriam românticas sexuais ou transcendentais. Esclarecidas, e convictas de que os encantamentos místicos, assim como os ensinamentos por demais dogmáticos, eram coisas do passado; nefasta tanto a crendice quanto a extremada racionalidade. A ciência com sua real importância, mas também merecedora de restrições e controle. Inegável os feitos extraordinários na ciência e nas artes, o que as tias de Maria acompanharam, até o dia em que viram o homem a pisar na Lua. Mais extraordinário ainda, ver os passos do astronauta aqui da terra através de um veículo chamado Televisão. Na casa da sobrinha Deizinha, Amália acompanhava tudo o que se passava em volta, e não era pouca coisa o que acontecia na família e no mundo em transformação. As notícias de fora sabia através do rádio, enquanto as da família de viva voz, ou  lhes chegavam por cartas. Telefone ainda não existia, mas a telepatia que funcionava em casos extremos, por exemplo, quando a tia recebeu a notícia da morte de um parente. Na época as pessoas sem demonstrar grandes medo, nem preocupações exageradas, o que seria prova de fraqueza humana, já que se devia confiar acima de tudo na ajuda divina.
  6.         O importante era não voltar atrás o relógio do tempo, coisa para bobos, dizia Amália, que viveu com alguma autonomia individual – mais que as irmãs casadas. Viveu sua longa vida sem alegar necessidade de nada, embora deva ter sentido, sim, falta de muita coisa, inclusive de um companheiro. Perdera ainda a chance de aprimorar mais sua cultura, o que pouco lhe teria valido naquele tempo, a não ser o prazer pessoal. Tempos avançados já naquela época, mas o assunto era tabu, o caso de uma alta funcionária, prima de uma amiga da família, que morava no Rio, Adelaide, e vivia com uma francesa, coisa que a tia de Maria não queria comentar, pouco convivendo com elas durante sua estada na capital federal. Era hóspede da outra prima, solteira, que não dividia a cama com ninguém. Na terra natal, Amália pouco frequentava o confessionário de frei Policarpo, mas aos domingos lá estava cumprindo humildemente seu compromisso maior com Deus. Gozava de alguma liberdade, sem se afastar demais daquilo que fora engendrado pela família, por seu meio social, pela religião, poderes tutelares. Mas por acreditar principalmente em si mesma, acontecia de ser livre da condição de simples tutelada.  A certa altura da vida comprou uma casa no campo, onde por muito tempo ainda foi viver tranquila sua vida solitária. Estaria cansada da intimidade com as pessoas, e vice-versa. As frustrações que acontecem no convívio constante. Nas férias escolares recebia os sobrinhos, e a tia sempre visitava a família. Alguém poderia dizer que Amália serve de exemplo para o naturalismo de Rousseau. Ledo engano.
  7.  



sábado, 1 de março de 2014





                                            A VIRGEM MARIA NA UCRÂNIA

        
                                        Igreja de Santa sofia



                                Kiev destruída durante a Segunda Guerra             
             

            Ucrânia, nome que me faz lembrar de imediato às aparições da Virgem Maria, que aconteceram naquele país na década de cinquenta, ou um pouco antes, não sei bem a data. É um fato que ainda me toca, assim como tocou toda a juventude católica no pós-guerra, início do comunismo naquela país europeu. A Ucrânia ameaçada por nazistas e comunismo, impasse que teve fim após a Segunda Guerra, quando o país foi anexado à extinta União Soviética, cujo regime comunista e ateu, passou a perseguir os religiosos do país. Foi justamente quando aconteceram as visões do padre católico, seu nome guardado em minha memória até há pouco, uma pena que não possa mais citar aqui, inclusive, porque não encontrei referência alguma a essas aparições, que raramente acontecem aos religiosos, principalmente do gênero masculino. A notícia que correu mundo, o muito que deve ter representado para os católicos ucranianos. O certo é que tenho essa lembrança da fé católica, que resistia ao ateísmo na Ucrânia, como em outras partes do mundo. Registro aqui a fé do povo ucraniano, e certamente sua dor por ter convivido com o ateísmo por tanto tempo. A quase totalidade da população ucraniana tem vocação religiosa, a maioria de cristãos ortodoxos, mais de 80%, enquanto o grupo menor é constituído de católicos romanos, protestantes, judeus e mulçumanos.  Apenas 3% de outros, inclusive ateus.

             O cristianismo ortodoxo oriental influenciou fortemente a arquitetura, a literatura e a música do país. A Rússia, por sua vez, deixou de ser um país comunista e ateu, após a extinção da União Soviética. Foi a promessa feita pela Virgem Maria aos videntes de Fátima em Portugal, ainda em 1917.  Na era soviética houve o chamado genocídio ucraniano. Com a extinta União Soviética ocorreu a independência em 1991, restando aos ucranianos, além da liberdade, uma boa infraestrutura para seu país, e um exército maior de toda a Europa, só perde o russo. O maior país europeu,  com solo fértil, e por muito tempo considerado celeiro do mundo, hoje a Ucrânia é composta de 24 províncias e uma república autônoma (Crimeia) e duas cidades com estatutos especiais. Kiev, a capital, onde ocorreram as rebeliões contra o presidente Viktor Yanukavich, e Sevastopol, onde acontecem tensões contra o governo provisório. Na fronteira, a Rússia faz exercícios de guerra, alertada por outras potências mundiais sobre o erro de avançar sobre Ucrânia. Que a Virgem Maria mais uma vez tenha o olhar voltado para os ucranianos.