quinta-feira, 13 de outubro de 2016
terça-feira, 27 de setembro de 2016
CURRICULARES
E OPCIONAIS
A educação do país faz tempo que ocupa lugar humilhante no ranking mundial. O
motivo de tal descalabro todos sabem e questionam, é a ineficiência do ensino no
Brasil, desde o básico ao médio, com o que patinamos no atraso, sem que se possa
alcançar as demais nações que primam pelo nível educacional e a favor do
desenvolvimento, o que todos almejam. A MP lançada pelo governo neste 22 de
setembro é para ser uma revolução no ensino brasileiro. Por enquanto causa mais dúvidas, que certezas. Mas o que se
cogita, desde quando nos vimos na situação de inferioridade, é fazer alguma
coisa. O sino de alarme toca sem parar desde a subida de Lula ao poder, e lá se
foi mais de uma década que o presidente de poucas letras foi eleito por um povo
idem. Deu no que deu.
O
rendimento escolar é pífio, os gastos na educação são elevados, mas os recursos
mal administrados, tanto financeiros quanto de pessoas. Tantos jovens abandonam
os estudos por falta de estímulo para que prossigam e tenham um futuro melhor. A
mudança proposta pela medida provisória que Michel Temer acaba de assinar é
para que o aluno aprenda numa escola que funcione de verdade, pois o que acontece
hoje é o professor despreparado e mal remunerado fingir que ensina, enquanto os
alunos fingem que aprendem, os que ainda ficam nas salas de aula, pois a fuga é
grande. O americano Richard Feynmam, prêmio Nobel da Física, em visita a nosso
país nos anos 50, comentou sobre nosso ensino: “um currículo tão extenso, e
jovens que sabiam tão pouco”.
Sabe-se
de antemão que o ensino médio brasileiro patina sobre o básico. Focar então no
essencial, eliminando a sobrecarga de matérias, de pouco interesse para os
alunos, para que haja melhor
aproveitamento. As matérias obrigatórias serão reduzidas a apenas três:
matemática, português e inglês. As demais, opcionais, propondo-se ainda eliminar educação física e
arte, o que parece até castigo, não querem muito estudo, também não vão
desperdiçar tempo saltando, correndo, nem pintando o sete. A coisa precisa ser
bem equacionada para que as limitações não agravem a situação de indigência em
que vivemos.
As
promessas são de melhoria substancial, se forem concretizadas as mudanças, o
que só deve acontecer a partir de 2018. No exterior vem dando certo, não querer
que todos entendam de tudo, ou a maioria fique sem entender nada. Grave
equívoco do nosso país, com uma população ainda sujando as fraldas. Tanto que,
se o Nobel visse hoje as escolas violentas e anárquicas que temos no Brasil
fecharia os olhos e taparia o nariz. Quem podia imaginar a que ponto chegamos,
não de avanço no conhecimento, mas em falta de disciplina nas escolas, com tráfico
de drogas nos pátios e até tiroteio em sala de aula, local que era respeitado
no passado, quase como um templo!
E como
entender que o mundo na década de 50 era menos tecnológico? Acreditava-se na
possibilidade de uma humanidade que evoluía, com a filosofia, a sociologia, e
tudo o mais que abria as mentes em direção ao pensamento livre - para poucos, bem
verdade. O preço pelo livre pensar que a sociedade hoje não está disposta a
pagar para ver, o caso da “ideologia dos gêneros”, por exemplo. Uma das
“opcionais”? O ensino pode melhorar ao focar naquilo que interessa ao aluno
aprender e a sociedade quer pagar por isso. Um adolescente não mais se descabelar
para aprender tantas matérias, quando deve mirar nas que fazem parte de seus
objetivos futuros. Além do mais ninguém precisa ser uma enciclopédia, quando
tem a internet, que pode nos abastecer de todo conhecimento, ao simples toque
na tecla do computador.
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
FÁTIMA
Vou-me embora pra Pasárgada/ Lá sou amigo do rei/ Lá tenho a mulher que eu quero/Na cama que escolherei... Manuel Bandeira suspira por essa Pasárgada imaginária, em que possa gozar a liberdade para fazer o que quer. Lá a existência é uma aventura de tal modo inconsequente. Desejo de viver a urgência dos prazeres, das mortais sensações. Não seria melhor ir para um lugar de bênçãos, agradecer pela vida, pela fé que transforma, e faz a pessoa viver mais consciente e feliz? Um lugar especial é Fátima, pequena cidade portuguesa, onde fica o Santuário em homenagem a Mãe do Rei dos reis. Se em Pasárgada o poeta pode chamar a “mãe d´água” para contar-lhe histórias, em Fátima posso chamar N. Senhora para contar-me uma bela lição de amor e de vida.
Vou embora para Fátima, lá sou amiga de uma rainha, a Rainha da Paz. Penso o quanto seria bom viver na pequena e encantadora cidade de Portugal, que surgiu com as aparições da Mãe divina aos três pastorzinhos, que vai fazer 100 anos, em 1917. Estive há pouco em Fátima, quando então senti a fé vibrante dos peregrinos que visitam o local de fé. A felicidade que é consequência da fé e amor pela vida, no que ela tem de santidade e paz. Aqui na minha pátria querida também posso ser feliz, mas elucubro como seria bom viver no exterior, longe dos problemas nacionais. E eu possa ver de fora o Brasil encontrar o caminho para seguir em direção a melhores dias, resolvidas as dificuldades políticas e econômicas.
Nosso país, antiga colônia portuguesa, solo rico e abençoado, com um povo que vive a religiosidade católica, em sua maioria. A essa tradição junta-se a africana e indígena, também vigente entre os brasileiros. Como diz Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Portugal, nosso avozinho e a África nossa avozinha. A fé é um bem importante para a formação do homem, esse animal racional, que evoluiu em sua humanidade para o que conhecemos hoje como religião e civilização. Matar uma é matar a outra. A barbárie sempre à espreita... Cuidado! Há pouco o Cardeal D. José Saraiva Martins, presidente do 24º Congresso Mariano Internacional, encerrando o evento na Cova da Iria, proferiu as seguintes palavras: “Fátima é uma escola de verdade porque nos defende da fábula, nos ensina a encarar a realidade e o coração de Deus”.
domingo, 11 de setembro de 2016
MANSFIELD PARK E O TERRORISMO
O terceiro romance de Jane Austen, de
1814, tem como cenário uma propriedade de Northamptonshire, e acontece como um
conto de fadas. Eram três irmãs Ward: Maria, que adota o título de Lady Bertram
ao se casar com Sir Thomas, dono de Mansfield Park; a Sra. Price, mãe de Fanny
a protagonista da história; e a Sra.
Norris, casada com o reverendo local. O casamento uma espécie de adoções da
mulher pelo homem, o status advindo dessa união, numa época em que a função primordial
da mulher era conquistar um “bom partido”, o que nem todas as belas e prendadas
mulheres conseguiam, o número delas insuficiente. As feias acabavam por escapar
das garras de um marido ruim. A sorte dependendo de certos arranjos, e Lady
Bertram se dá bem, o que não acontece com sua irmã, que está em dificuldades, e
sua filha vai para a adoção. De pronto a Sra. Norris recusa receber a sobrinha, que vai para o lar de Lady Bertram. Fanny Price troca, pois, a
decadente Portsmouth por novo lar, que não é um paraíso, mas onde pode aspirar
a melhor futuro. As mudanças que ocorrem a qualquer um, com obstáculos a
enfrentar, sem dia e hora para acontecerem, o perigo de cair em desgraça.
Jane Austen tem como exemplo a adoção do
irmão pelos Knights, mas a pessoa adotada no seu romance é uma mulher, sem
direito a nada, diferente de Eduard Austen, herdeiro dos pais adotivos. A Sra.
Price chega a estranhar que Lady Bertram tenha escolhido uma filha e não um
filho para adotar, as mulheres pouco valorizadas. Detecta-se a falta de
instinto materno na Sra. Norris, também em Lady Bertram. Intrigante que a
realização da mulher estivesse exclusivamente por conta do matrimônio e
maternidade, quando tal instinto nem existiria, segundo as feministas. Mas o
romance de Austen anuncia a moral vitoriana, uma cultura de respeito humano, em
que a solidariedade são valorizados, e que não se perca o sentido da vida. E nos
perguntamos, qual o bem de uma mãe de família omissa e irracional, como Lady Bertram? E que respeito
tem uma esposa racional e maldosa de um
clérigo, como Sra. Norris, que julga as pessoas por sua origem?
Fanny é a personagem principal de uma
fantasia literária, cujo feminismo é calmo,
moralista, a uma distância considerável das feministas do século XX, que podem
ser herdeiras do feminismo das outras personagens da história de Jane Austen. Maria e Júlia, irmãs de Edmund e Tom, filhos
do dos donos da casa, são ativas e barulhentas, causando estranheza na
recém-chegada. E o quanto faz barulho a instável Mary, irmã de Henry, os intruso no paraíso. É como se
essas personagens dissessem: precisamos aumentar o barulho e andar
mais depressa. São anti-heroínas, conquanto mais simpáticas aos leitores que Fanny,
a heroína da história. São Tomé duvidou da fé dos apóstolos fundadores da religião
dos primeiros tempos. O protestantismo viria dessa linhagem, a qual acredito pertença
Sir Thomas, o senhor de Mansfield. Mas a criação intelectual de Austen não é de
cunho religioso, mas crítica e intransigente. A difusão laica da moral através
de uma obra literária, que transmite aos leitores os preceitos éticos do
protestantismo, responsável pela formação da caráter inglês, assim como a fé
professada. A arte de escrever como meio de expressão e instrução, afinal foi
Lutero quem primeiro traduziu a Bíblia para o dialeto local e imprimiu o texto
sagrado. A liberdade de expressão inaugurada através desse feito heroico. Fanny
pensa como a autora, que a certa altura se parece com a maldosa mulher do
pastor, a Sra. Norris, sua tia e inimiga, até mesmo como Mary Crawford.
Portsmounth é o paraíso definitivamente
perdido de Fanny, pela tragédia que nele se instalou. Uma tragédia pessoal,
assim como existe a tragédia coletiva das divergências religiosas que resultam em
guerras. Mas Mansfield não é também um paraíso, Fanny entra choque com as
fúteis Julia e Maria, que só pensam em aparecer. Também não tem afinidade com
Mary Crawford, que fala mal dos seus antigos pais adotivos. O pior pecado é a
ingratidão para Fanny. No antigo lar Fanny tinha ainda duas irmãs, Betsy e
Susan, que brigavam por qualquer coisa, e chegam a disputar uma faca, um mundo
meio selvagem, o feminismo idem. Os jovens são apresentados como os pares bíblicos: Maria e Julia; Eduard e Tom, filhos
dos donos do paradisíaco Mansfield Park, mas que não são como Caim e Abel, nem
Esaú e Jacó, irmãos que traem e matam, inimigos. A rica e civilizada Mansfield
promove a união entre aqueles que frequentam a nobre residência. Mas quão frágeis
são a educação e a civilidade daquelas pessoas. E com pouca civilidade agem
também os irmãos Crowfords, Henry e Mary, fazendo o jogo do amor que dilacera
corações. Henry é um personagem shakespeariano, que flerta ao mesmo tempo com
Júlia e Maria, a exemplo de Henrique VIII que seduziu duas irmãs Maria e Ana Bolena. Já a
teimosa Mary (a católica Mary Stuart) recebe a afeição de Edmund, herdeiro de
Mansfield, mas que não lhe dá o devido valor, abrindo espaço para Fanny. Jane Austen fantasia a realidade
política e religiosa da Inglaterra à época. Acredita a autora no poder da literatura, da
arte laica, mas seu olhar é nitidamente moralista e religioso.
Em
Mansfield, formam-se e desfazem-se os pares, por conta dos caracteres de cada
personagem envolvido. Edmund, herdeiro de Sir Thomas, a princípio, escolhe Mary
como esposa, com o intuito de convertê-la. Mas a paixão romântica, fantasia teutônica de Henry por
Maria, já casada, atitude apoiada por Mary, que então perde o valor diante de
Edmund. Falta consciência moral em Mary, como em Maria, duas pecadora como
Maria Madalena, representantes do catolicismo romano? A heroína do romance poderia
ser Mary, mas ela se torna a vilã. E quem recebe o título é a virtuosa Fanny,
que no final vai ficar com Edmund a quem desde o início quis conquistar, e
já havia rejeitado Henry, antes da fuga com Maria. Fanny é grata, altruísta,
bondosa, correta, como deve ser uma verdadeira alma cristã. Para os atuais
leitores de Jane Austen a protagonista desse romance é uma chata, mas ela pensa
de acordo com a autora, na sua fantasia literária, sendo filha de um pastor da
igreja anglicana.
O
protestantismo sendo mais austero que o catolicismo, o que seria uma
contradição. O alcoolismo do marido da Sra. Price, assim como o adultério de
Maria Bertram, e ainda a falta de caráter da condescendente Mary, seria para a
autora falhas morais graves na família e na sociedade, culpa do modo de ser
católico, compassivo e supersticioso. Além de suas virtudes pessoais, Fanny, a
heroína da história de Austen é uma felizarda por ter William como irmão, digno
de respeito e admiração, seu pai substituto. Igual a Mary, com seu irmão,
Henry, que não é, todavia, uma boa pessoa, o que contribui para a diferença
entre as duas. Na falta de um pai, ou poder superior confiável, é importante
haver quem o substitua, na vida real, como na imaginação. O nome William remete
a William Shakespeare, crítico da corte elizabetana, de quem Austen seria
leitora assídua, de seu aprendizado literário. Henry, a Henrique
XVIII, um personagem shakespeariano, que flerta ao mesmo tempo com Júlia e
Maria, a exemplo do tirano inglês que seduziu duas irmãs Ana e Maria Bolena. Já a teimosa
Mary (a católica Mary Stuart?) recebe a afeição de Edmund, herdeiro de
Mansfield, mas que não lhe dá o devido valor, abrindo espaço para Fanny. Jane Austen fantasia a realidade
política e religiosa da Inglaterra à época. A autora acredita no poder laico da literatura, da
arte, mas seu olhar é nitidamente moralista e religioso.
As mudanças que ocorrem na vida das
pessoas, assim como nas sociedades, que evoluem. Ou regridem, como acontece com
o país de origem dos imigrantes, que partem da terra natal para melhorar suas
vidas, e podem não encontram o paraíso no lugar adotado, como esperam. Os
foragidos das nações em guerra, por exemplo, que chegam em grandes levas aos
países desenvolvidos e em paz, quando a adoção, ou inclusão, não é assim tão
fácil, principalmente quando não se está ali por vontade, mas por força das
circunstâncias. Uma questão crucial para quem chega, é preservar a bagagem
cultural, ou então assimilar a cultura local. Fora do contexto de uma cultura
universal, alguns acabam por se deixarem seduzir pelo radicalismo, pelo
terrorismo individual, ou em grupo. A literatura laica pode ajudar. Para que não
encontrem inspiração nas células terroristas, do Estado Islâmico, por exemplo,
que matam e morrem alegando que agem em nome de Alá. Uma
das tendências mais perturbadoras da atualidade é o terrorismo, que teve
ascensão abrupta no mundo, e requerer resposta urgente da civilização. O ser
humano é naturalmente violento, e o terrorista não é um ser diferente de nós,
apenas adotaram a violência como modo de vida, em um mundo que se afasta cada
vez mais da paz divina. No romance, Fanny vai ter sucesso ao final por
merecimento e certamente ajuda de Deus, é o que se depreende do texto
analisado. As demais personagens femininas não se dão muito bem. No mundo atual
há os que fazem barulho por nada, que dizem lutar por uma causa, mas não passam
de pessoas movidas, menos pela justiça e mais pelo ressentimento. Dizem ser
contra o racismo, a homofobia, a discriminação, mas querem é se mostrar, e são o
contrário do pregam.
HOJE
FAZ QUINZE ANOS QUE OCORREU O ATENTADO TERRORISTA ÀS TORRES GÊMEAS EM NOVA
YORK, ONDE MORRERAM MAIS DE DUAS MIL PESSOAS.
Nota: Minha interpretação deve, em parte, a A.S. Byatt e Ignês Sodré autoras do livro IMAGINANDO PERSONAGENS.
Nota: Minha interpretação deve, em parte, a A.S. Byatt e Ignês Sodré autoras do livro IMAGINANDO PERSONAGENS.
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