quarta-feira, 15 de junho de 2022

domingo, 12 de junho de 2022

 

                                                     ENVELHECER É VIVER

 

S. LUÍS - MA


Os oitenta anos da mãe de Maria lhe chegaram sem maiores dores que as normais da velhice, está em boa forma física e mental e mais atilada  que nunca. Foi conferir na farmácia e havia perdido três centímetros de altura, ciente que com a idade a pessoa encolhe até uns cinco centímetros, ou um pouco mais. Pequenina e sempre  bem disposta, nunca a vida lhe pareceu um peso, só reclama os avanços tecnológicos e da ciência que não tornaram o mundo melhor, parece que virou do avesso. O pior é a desesperança, coisa que passou a existir até entre os jovens. No passado a pessoa dizia estar pronta para o que der e vier.

Maria concorda com a mãe que os mais novos acham que os mais velhos são paranoicos. Atualmente todo mundo afetado por essa paranoia, tantos são os crimes. Os velhos sendo vítimas frequentes dos golpistas. Quando o telefone toca, e é um desconhecido, dona Clara entra em alerta. E quando percebe que a pessoa do outro lado da linha está tramando algo sinistro, em vez de ficar assustada trata de revidar, aconselha que se regenere, e teve um preso em condicional, que ficou agradecido pelos conselhos, disse que ia voltar para a terra natal.

Hoje é normal que haja medo ao atender um estranho ao telefone, assim como falar com desconhecido na rua, não faltam casos de gente que cai em golpes, os golpistas cada vez mais imaginosos. Os bancos passaram a avisar que não pedem número de conta nem informação alguma para seus clientes. Aconteceu de uma jovem ter passado para um vigarista todas as suas economias a um simples toque no QRCode.

Vivemos hoje uma “sociedade tóxica”, o que dizem sobre essa nossa diversidade adversa. Os mais fracos atacados de todos os lados. Maria questiona para a mãe, como alguém pode viver do crime e ainda pensar que o luxo de um carrão o faz feliz? Pessoas más, que roubam e ainda matam. Cometem um crime hediondo e diz que é surto de loucura, o caso do rapaz que atacou uma escola e  matou mais de vinte pessoas numa escola nos EUA, a mãe dele pedindo que o perdoasse, que ele não era uma pessoa má.

Dona Clara tem uma explicação para o que está acontecendo com a sociedade, com as famílias, e seria por falta do amor maternal, filial, as pessoas também sem o devido amparo social e da religião, como devem ter. Crianças e jovens descuidados, abandonados, desorientados, que enveredam cedo pelo crime, e acabam criminosos de alta periculosidade, assassinos, estupradores. Gente que não recebe amor — e quem não tem, não pode dar.

Maria está de acordo que só a bondade faz renascer a esperança, a confiança. Procurar ajudar alguém é o melhor a fazer para levantar a cabeça, elevar o espírito. Uma boa ação pode, inclusive, ajudar na depressão causada por ansiedade no trabalho, ou por falta de meio de subsistência e realização, coisa que aflige o indivíduo e a sociedade. Ser bom dá retorno certo. Uma boa ação é como uma oração. Exemplo de boa ação é escutar alguém, dar atenção ao que ela tem a dizer. Dar um pouco do seu tempo ao próximo. Mas que se evite ser invasiva,  chata, quando se impõe a fé, o partido político, e por aí vai.

Dona Clara sempre diz que quer estar de bem com a vida em respeito a si própria e aos demais. Gosta de escutar as pessoas, quando elas  só querem ser ouvidas, afinal, todos têm o direito de se manifestar publica ou particularmente. Conta que uma idosa do seu convívio em criança chamou-a: “Senta aqui, eu estou para deixar vocês!” Apenas alguns segundo e ela já estava indo embora, quando a tia velhinha certamente ia falar-lhe  do seu amor.  Lastima não ter ficado mais tempo escutando o que sua madrinha  tinha a dizer!

Maria fala para a mãe que havia acabado de ler o livro “O Que Você está Enfrentando” da escritora Sigrid Nunez, um tanto negativo quanto à velhice. A certa altura um filho se vê diante das manias de sua velha mãe e lastima: “É tão triste o que acontece com os velhos.” A seguir diz que preferia morrer a ficar velho. Um disparate falar assim, pois se os mais velhos são ignorados, lastimados, nada mais vai faltar para que o pessimismo se instale no mundo. A amiga desse mesmo personagem, convidada a visitar a mãe do rapaz duvida que signifique alguma coisa aquela visita. Claro que falta empatia das partes envolvidas. Os velhos querem atenção, respeito, carinho. Os jovens também.

 

 


sábado, 11 de junho de 2022

Strauss ~ The Blue Danube Waltz

 

FICÇÃO

          

                                     LIÇÕES DA PATAGÔNIA





 

Ela gostava de viajar. Aos oitenta anos o sentimento de Dalva a respeito do assunto era de todo modo contraditório. Andou demais por esse mundo afora, viagens uma atrás da outras, isso desde que se aposentara. Não pretendia mais enfrentar aeroportos, e tudo o mais que as viagens exigem, parecia estar satisfeita, feliz com tudo que viu, agora era só recordar. À tarde costumava assistir um programa na televisão sobre lugares exóticos, quando  viu a Patagônia na tela, e de imediato disse para si mesma: Como havia deixado de fora essa aventura?

Pela manhã, coincidentemente, a amiga Maria, que há muito não via, lhe falara ao telefone que ia para o Rio, tinha comprado um apartamento em Copacabana. Ligou de volta, propondo fazer-lhe companhia, caso concordasse.  Sua ideia era aproveitar e dali partir para a Patagônia, que ficava entre a Argentina e o Chile, ver os animais de perto, não apenas admirá-los nas gravuras e na tela da televisão. Ia por os olhos cansados nos mais interessantes animais existentes na terra.

Comunicou ao marido a nova viagem, só a do Rio, não a aventura na Patagônia, embora ele jamais tenha reprovado alguma coisa que ela fizesse, era da santa paz, aprendera no seminário. Ele dera um basta, alegava estar farto após três excursões ao exterior. Enquanto a mulher continuava a viajar, numa quase compulsão, essa a verdade, até que ela mesma resolveu parar, afinal os anos já lhe pesavam. Mas de repente veio esse seu desejo de Dalva conhecer o lugar onde Darwin deu início às pesquisas que resultaram na sua teoria da seleção natural, ou da evolução das espécies. Católica fervorosa, adepta do criacionismo, também admirava os avanços da ciência. “Ai de nós se não fossem as vacinas nessa pandemia do covid19”, dizia para os incrédulos, gente que não acredita em nada.

Maria aceitou de bom grado ter a companhia de Dalva naqueles quinze dias que ia passar no apartamento novo. Sem que estivesse em seus planos estender o passeio. E quando a amiga ao chegar falou da ida à Patagônia ficou aflita. Terra erma, sítio que remetia à vida selvagem, à ancestralidade. Sentindo-se responsável pela amiga tratou de entrar em contato com o marido dela, que de imediato disse ser impossível dissuadir a mulher de alguma coisa que quisesse fazer, em especial viagens. E mais, confiava na sua acompanhante para a aventura naturalista, nas pegadas do cientista inglês.

Ainda em Copacabana Maria percebeu que Dalva estava o tempo todo pondo a prova sua amizade por ela. Disse-lhe então que podiam, sim, fazer aquela viagem. Pensou: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Boa ideia observar os animais no seu habitat. E assim partiram as duas para a aventura. Uma surpresa o tamanho minúsculo dos pinguins, seu andar desengonçado, escorregando nas pedras como em tobogãs para caírem na água, namorando, e o que se sabe é que esses animais são alegres criaturas e os mais fieis dos amantes, para inveja dos tristes e infiéis seres humano. Darwin, todavia, ficara abalado com o problema do mal. Observou o sofrimento e a dor no reino animal, por exemplo, uma  vespa paralisa uma lagarta para servi-la viva como alimento aos filhotes. 

Quando Dalva viu um mandrião em disparada mergulhar nas comunidades dos pássaros e pegar um filhote e voltar a disparar, grita revoltada: “Solta ele, bicho mau”. A infeliz presa esperneia, e logo chega outro mandrião para compartilhar o repasto. Maria rebate:

— Não, Dalva, o mandrião não atacou a presa por maldade, agiu por instinto. A única forma dos irracionais conseguirem alimento é essa que acabamos de ver. A violência e tudo por mais estranho que seja, faz parte da vida selvagem. Darwin relutou em perder a fé em Deus, mas parece que nunca foi um ateísta. Deus é o Bem. A fé em Deus que redime de todo mal. Amém!

Encantada com os pinguins, Dalva faz a observação:

— Os pinguins e as focas mergulham para pegar o peixe e devorá-los ainda vivos, mesmo assim, transmitem uma imagem de inocência infantil, como crianças. Só que diferente dos irracionais os seres humanos, racionais, têm sentimento, e há pessoas que não comem carne em consideração aos outros seres vivos, mesmo que seja um bom alimento.

Conclui Maria:

— Como é o sentimento que nos move vale observar nossas ações, se há maldade. E quanta maldade há no ódio, na inveja, no ciúme, na ganância. Sendo assim, vivemos tão perigosamente na cidade como na selva, temos que nos acautelar. A maldade é contagiosa, mas, felizmente, a bondade também. Podemos aperfeiçoar-nos no sentido de sermos bons, cada vez melhores.

Já estavam de volta, Dalva havia abandonado sua desconfiança e fastio, e Maria podia dizer sem medo de errar: ”Se alguém quiser conhecer outra pessoa faça uma viagem com ela.” Verdade.

 

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