sexta-feira, 31 de maio de 2024
NADA É POR ACASO
Cada pessoa vê o mundo de forma diferente, e há
quem nele se encaixa, ou se acomoda de qualquer jeito, são os
conformados. E tem os que olham a vida com má vontade, e ainda
querem por tudo abaixo, os rebelados.
A conformação é abismal, assim como é trágica a rebeldia sem uma boa
causa.
Ela
sempre cedia,e tinha o costume de dar prioridade aos outros, sendo a última a se servir na
mesa, quando então colocava a menor porção de comida no prato, e ainda dizia que sobrava da galinha era o seu pedaço preferido. Não se sentia merecedora de qualquer privilégio,
nem pensava em ter algo de valor para ser seu. O pouco que tinha de boas lembranças guardava numa caixa de
papelão atrás do armário de antiguidades da família. Seu nome: Conformação.
Ele sentou na cabeceira da mesa ao casar com a fillha da viúva, nada mais cômodo para um gigolô. Fazia
questão de ser bajulado e servido como um rei. Nunca enchergou as pessoas como dignas de respeito, só queria a satisfação própria. Sumia de casa, e só aparecia quando o dinheiro acabava, pondo fim à alegria da família com seus abusos. A mulher prisioneira na própria casa, enquanto o marido nas esquinas importunando meninos e meninas. Morreu esfaquiado por outro gigolô. Seu nome: Danação.
Talvez por suas lembranças Maria acha que deve considerar a vida como um acaso, as pessoas estando naquele lugar, naquele momento, naquela vida. Mas nada é simples acaso, e podemos conduzir nossa vida com certa tranquilidade. Seguir viagem seguros de que o carro não vai bater na estrada, o trem não vai descarrilhar, o avião não vai cair, por conta do acaso. Embora haja momentos de pânico, como aconteceu quando um condutor maluco jogou o avião que conduzia sobre às montanhas. Nada é por acaso, e tudo é possível!
terça-feira, 28 de maio de 2024
NO JOGO DA VIDA
Maria tem observado que a vida pode ser comparada com um jogo, onde as pessoas fazem suas apostas, com possibilidade de ganhar ou perder.
Os relacionamentos são grandes jogadas, onde às vezes apostamos tudo, com o risco ainda maior. Temos que aceitar, e pagar para ver, consciente que perdendo ou ganhando a gente está vivendo. Bom reconhecer que fizemos o nosso melhor. Ruim é não saber como podeia ter sido. Mas dá para imaginar...
Ela
não ia voltar para o Norte, mas assumia o emprego no Rio, deixando de depender financeiramente da
família numerosa, sendo a filha mais velha. Não ia retornar à casa dos pais
para esperar um marido e ter, no mínimo, uma dúzia de filhos. Ainda correndo o
risco de ficar solteira, como duas conterrâneas da geração anterior, que noivaram
por anos, e os pretendentes as deixaram
por outras. Não desistir do seu sonho de
melhorar seu status social no mundo, como mulher, dona do seu destino, com
dinheiro no bolso, o que até então só acontecia com os homens e as beneficiadas
com heranças. Além do mais, se voltasse
de mãos abanando, iriam achar que ela era uma perdedora, e ainda escutar a irmã
mais nova cantar em debique: “Se subiu, ninguém sabe ninguém viu”.
As
lembranças lhe vinham como em uma folha em branco para ela rever o passado. Aos
dezoito anos estava no Rio, tendo uma boa oportunidade de ser contratada para
trabalhar na “holerite” do BB. A demora em ser chamada era comum, mesmo aos
concursados. Não ia voltar correndo para casa dos pais, com medo de perder um
ano de estudo. Época em que tinha sido vetado às mulheres o concurso para ser
funcionária efetiva da renomada instituição bancária. Mas havia sido avisada
que as coisas iam mudar, e em breve ia ser efetivada, com a mudança das normas
da instituição, que devia se adequar aos novos tempos.
Maria estava feliz, pelo trabalho e também
porque seu irmão mais velho havia chegado a S. Paulo, onde sempre sonhou em morar, na cidade mais rica do país, um outro mundo. E acabara de decidir também não retornar
ao interior de Pernambuco. A noiva, que deixara lá, ao assumir o emprego no
banco, não queria sair da cidade natal, conforme anteriormente combinado. E foi
esse irmão quem deu a notícia para Maria que seu colega do Liceu Maranhense,
antiga paquera da irmã, estava em S. Paulo, também no BB. Ela completando um
ano de trabalho, já funcionária efetivada.
Novembro,
Maria ia tirar férias e aproveitar para visitar o irmão, além de conhecer sua
nova namorada. Ainda podia ter um encontro com o tal paquera. A prima carioca
de Maria ficou animada, e de pronto ofereceu-lhe companhia, também estava de
férias do trabalho no IBGE, ansiosa por conhecer a “terra da garoa”. Combinaram a
viagem para dali uma semana. Malas prontas e lá se foram as duas primas, que já
eram grandes amigas, desde que Maria chegou no Rio.
Já
há dois dias em S. Paulo, Maria ia finalmente encontrar-se com o amigo do irmão,
certa de que o reconheceria. Mas ao
vê-lo descer a escadaria do Masp, local do encontro, teve de imediato a certeza:
ali estava o homem de sua vida. Fazia frio e ele vestia um elegante casaco
preto, os olhos verdes-azulados a brilharem em sua direção, e que dali para frente, sempre haveriam de
brilhar para ela. A prima naquele mesmo ano conheceu Antenor, colega de
trabalho, com quem se casaria no ano seguinte, quando também ocorreram os
outros dois enlaces.
“O que
é o bom para nós, — se ainda não chegou—, está a caminho”, diz sempre Maria.
segunda-feira, 27 de maio de 2024
domingo, 26 de maio de 2024
MÃOS
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| Por do sol da minha janela em Brasília |
Costumamos
dizer que “os olhos são espelho da alma”, palavras que
expressam nosso ver e sentir. Eles
têm correspondência com as mãos, que realizam o trabalho, e também podem exprimir
amor, devoção, e por aí vai. Lembro-me
das mãos da minha mãe escrevendo cartas com sua bela caligrafia, as mesmas mãos
que nos seus últimos dias as tive entre as minhas, como a dizer-lhe que não
partisse, mas ela já estava fraca, com mais de cem anos, mas suas mãos eram as
mesmas macias das doces caricias de sempre. Já as mãos da minha avó recordo delas
cuidando do seu jardim, assim como
cuidava com esmero dos docinhos para festas, além dos demais labores que
realizava, e não eram poucos, sendo
admirável crocheteira .
Devota
do silêncio, minha tia era muito linda, mas tinha desgosto das mãos magras, e mantinha
suas unhas sempre pintadas no vermelho
vivo da moda, mãos que também vejo acenando
nas partidas, por mais perto que a gente fosse, e que apertavam calorosamente
nossas mãos nas chegadas. As envelhecidas
mãos da madrinha parece que tinham sido
feitas para se juntarem em oração. Da prima Aurora via suas mãos sempre segurando
um cigarro, mãos calejadas, que também falavam do trabalho na roça. Já as mão
da menina cega que tocava piano na casa em frente a nossa, na Rua das Hortas,
eram como mãos de um anjo.



