domingo, 15 de março de 2015



                  AINDA NO SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO

 

 

 


         Pedrinho e Narizinho chegam no sítio do Pica-Pau-Amarelo para visitar a avó, dona Benta. É a nova geração a quem Monteiro Lobato quer mostrar o velho Brasil, tal como ele é de verdade. Egresso da monarquia, interiorano, agrário, que por pouco mais de meio século sobreviveu precariamente separada de Portugal. Até a implantação da República, com o lema Ordem e Progresso, expresso na bandeira, mas claudicante na vida real.  Uma personagem ganha foro privilegiado na narrativa, Emília, obra da criada do sítio, Tia Nastácia, que faz a boneca de pano para presentear Narizinho. Mas o que era um simples brinquedo, por uma pílula mágica do Dr. Caramujo, fruto da nossa medicina alternativa, se transforma num ser falante, e dana-se a dizer   verdades e mentiras, a ditar regras da sua intuição.  

         A neta de dona Benta tinha ares de Sinhazinha, mas que de posse do presente, se vê em papos de aranha para satisfazer os caprichos daquela imaginação, tão fértil quanto absurda. Enquanto isso Pedrinho, meio moleque, não para de se aventurar pelo sítio, descobrindo um mundo de maravilhas, que disputa com Emília o coração daquela turma.  Lobato através dessa personagem folclórica, critica a própria monarquia brasileira e o ideal republicano, de um povo cheio de invencionices. O futuro da República brasileira nas mãos do Jeca Tatu, bajulado pela elite, quem podia imaginar?! Pode, sim, e tudo se concretizar, o Jeca muito bem integrado, sabendo roubar melhor que qualquer "elite", derrubada numa rasteira de mestre.   

         A figura do Marquês de Rabicó seria a pecuária nacional, dado em casamento para Emília, que logo repudia o marido. A agricultura tem como representante o Visconde de Sabugosa, que a boneca aproveita para torná-lo seu biográfico. Certo que Monteiro Lobato queria um Brasil que olhasse para fora, aprendesse com as nações em maior desenvolvimento e experiência, principalmente no que diz respeito ao desenvolvimento econômico. O escritor foi, inclusive o idealizador da Petrobrás, essa que está ai vivendo dias de amargura, e é a maior empresa brasileira. Quanto à nossa cultura popular, conquanto seja rica, não era suficiente para uma elite que despontava no país. Acontece do imperador Dom Pedro II se embeber de conhecimento e cultura lá fora, de certo modo distante do país que governava. E os herdeiros dessa tradição onde andarão? Também expulsos do país, ou foram engolidos pelo sistema.

          Damos um salto e podemos, então, imaginar os descendentes de dona Benta vivendo no século XXI, com as mudanças exponenciais que aconteceram. A República consolidada, assim como sua democracia, que de tempos em tempos sofre percalços. As grandes transformações que ocorrem no mundo, também aconteceram em nosso país. A mulher fora de casa, competindo trabalho com o homem, o que muda muita coisa nas relações familiares e na sociedade, que padece, todavia, de um atraso crônico. E a semente estaria ali, no Sítio do Pica-Pau-Amarelo, parece de onde não saímos, tais os personagens folclóricos que atualmente comandam o país. Enquanto isso a elite bate panela, depois de ser assaltada e levarem quase tudo dela, inclusive a compostura. É bonito isso?

       

        

sábado, 7 de março de 2015






                                                                        
 
       
                                                         SOLAR E LUNAR

        


 
 
             Uma pessoa alegre, comunicativa, feliz, que age às claras, ou à luz do dia, se diz que é solar. Já a lunar é triste, pessimista, noturna. Os dois lados com que a personalidade de cada um atua. Estar solar é quando se aproveita o que de bom tem a vida, planeja, executa, muda, com lógica, liberto dos entraves à razão. E sendo assim, sorri do que perdeu, do que ficou para trás. Se há esperança, persistir, se não, esquecer. Não pensa na morte, muito menos em querer conectar-se com ela, que os mortos descansem em paz.
       “Direis, ouvir estrelas? Certo perdeste o senso!... E vos eu direi, no entanto, que para ouvi-las desperto, e abro a janela pálido de espanto.” Olavo Bilac fala dos poetas, em especial, da alma em espanto diante das estrelas, que brilham no céu, desde sempre. Brilham indiferentes a nós, poetas ou não, de tão curta vida. Pálido e alumbrado, o lunar acolhe de coração a dor que não entende,  enquanto o solar abraça por vocação a alegria que surpreende. 
             A tristeza é tão legítima quanto a alegria. E não deve sofrer intolerância a dor que precisa ser curtida, assim como a alegria  merece ser cantada. Doce tristeza, aquela saudade, até de nós mesmos. Humanos que somos para suportar os dias triste, quando se quer fugir de tudo, e para vivenciar com gosto os dias alegres, de vida bem vivida, que é tudo de bom.  Sem levar as coisas muito a sério, nem querer mudar por mudar. Às vezes preferir não fazer nada. Nada vezes nada, o que pode nos salvar de muito sufoco. Mas estar atenta ao primeiro sinal da depressão, que não é coisa de doido, e deve ser levada a sério.       

sexta-feira, 6 de março de 2015

Maria Rita - Águas De Março






       
 
                        O DESAFIO DE SER MULHER



 Nos tempos atuais os desafios que a mulher tem de enfrentar são maiores que no passado, uma vez que ela deixou de ser simplesmente mãe de família, entrou no mercado de trabalho, passou a ter liberdade sexual e nem quer mais filhos, ou só mais tarde. Fora do lar, dessagrada, a mulher, no presente momento, tem um probleminha a resolver, o de não deixar de ser mulher, ou melhor dizendo, não perder sua feminilidade, algumas tentando manter uma atitude duvidosa, como que para esconder sua macheza, os saltos altíssimos, plec, plec, plec, as saias curtíssimas, sem falar nos penduricalhos.  Mas sobreviver de verdade como mulher, só se ela não fugir do amor, que pode conduzir seus desejos para o melhor dos mundos, aquele mesmo do passado, o lar tradicional, com pai, mãe e filhos. Parece que a desagregação dos primeiros tempos não passou, e as mulheres estão cada vez mais aflitas.

       Uma pergunta que não quer calar: “O que é ser mulher? Ou melhor dizendo: “O que é ser feliz como mulher?” Tão simples, e ao mesmo tempo complicado, entender esse ser multifacetado.  A começar por pensar na mulher como forte e racional, não como o homem, mas como mulher. Mas que ainda abre sua torneirinha de falar e chorar, mesmo que se encontre em um estágio avançado de realização pessoal, adquirido mais no grito que no choro. A sensibilidade não mais aquela, com que Mary Streep nos brindou nas Pontes de Madison, o filme que conta a história de uma mãe tradicional, que após uma romântica aventura extra conjugam, deixa partir um sonho de felicidade pelo mundo, para continuar cuidando do marido e filhos em Ohio. Muito esperta essa mulher, à moda antiga, que não quis trocar o certo pelo duvidoso. Podia acabar como Ana Karenina, tão infeliz a ponto de se suicidar. O pacato marido de Ohio, diferente do aristocrata russo que pune a mulher, afastando-a do filho, por julgá-la indigna.

         A mulher tem o instinto maternal e o homem o animal, foi o que se convencionou para os dois sexos. Mas o homem já está se permitindo ser menos durão, e a mulher mais forte, fragilidade e fortaleza que sempre fizeram parte da natureza de ambos, mas só agora se permitem assumir às claras seu outro lado. O homem talvez para compensar certa macheza da mulher, e vice versa, melhor assim, que para tudo se dá um jeito. Desde que o homem não queira virar mulher, nem a mulher virar homem. Ter equilíbrio pessoal, pois lá no fundo, onde a natureza é mais forte, é que define quem somos de verdade, certo que a gente tem a vida que pede a Deus e, dia sim e outro também, rezar para nossa salvação, ao acordar e antes de dormir, a qualquer hora. E nunca recorrer ao serviço do maligno, um ego medroso, raivoso, famélico.         

                   


quinta-feira, 5 de março de 2015





 
 
A MORTE É COISA SÉRIA

 



 Encarar a morte não é nada fácil, queremos ser eternos. Mas a ordem natural é nascer, crescer, morrer. Temos nossos dias contados, até que a morte nos atinja. Felizes comemoramos cada passagem de ano, o dia do nosso aniversário. Queremos viver, precisamos viver, até que se esgotem todas as nossas possibilidades. E depois morrer, que seria o destino final do ser humano, como de todas os outros seres animados ou inanimados. O ciclo que se renova, para que a vida se perpetue,  sempre igual e diferente,  o sentido da morte. E quanto ao sentido da vida é viver nessa ânsia de paz, amor e felicidade pode significar nosso desejo de mais vida, como também da própria extinção, para transcendermos em direção a uma outra vida. Almejamos a imortalidade, convictos que partimos para uma outra vida depois da morte. Qual vida é essa há várias teorias. Enquanto a morte não vem, viver da melhor maneira, cultivando a alegria, em primeiro lugar. Só estar vivo compensa toda a dor  que se possa sentir, que a vida não é fácil, mas tem jeito da gente se sentir feliz, mesmo com toda a dificuldade. Nada como um dia atrás do outro para nos fazer superar as tristezas e encontrar a alegria de viver, surpreendentemente, dentro de nós mesmos. 

 
Nossa evolução pré-estabelecida é de simples animal para um ser humano consciente da própria vida e da morte. E a consciência que temos da vida para ser vivida, basta nos mantermos no comando da nossa vida e da nossa morte, devia ser assim. Como disse Freud, o normal é a pulsão da vida ser maior que a da morte. Suicidam-se os que desprezam a vida. A morte prematura que também pode vir numa bala perdida, numa artéria entupida, num desastre, ou por um motivo qualquer, fora de propósito. A morte prematura, que faz o presente, o planejado para o futuro, deixar de existir para quem morre. Mas o dia chega para todos nós.  Minha mãe aos 98 anos, o corpo, até há pouco lépido e fagueiro, sofre imenso desgaste, sua mente rateia,  situação de que ela  lastimou certa ocasião, ao dizer que tinha tanto por fazer e se via presa a uma cadeira de rodas. Ela está bem e certo que seus filhos vão comemorar seu centenário, e ainda a terão por alguns anos. Mas penso na orfandade, como se ainda fosse criança, primeira grande perda minha a avó, eu já era mãe, e senti por meus filhos, como se eles me perdessem, tão jovens. Mas a idade não conta, só a dor por uma vida que se vai, e o peso da ausência.


 


terça-feira, 3 de março de 2015





                            FALAR E CALAR.

                                             

              

 



 

         No passado, não muito distante, o casal compartilhava um silêncio respeitoso, quase constrangedor. Acontecia com quem ficava junto para sempre, raras as exceções do casal separado, uma pecha para a mulher. Sobreviviam assim as relações pessoais e as famílias, cada um guardando a sete chaves seus segredos, e quem estivesse insatisfeito, sentindo-se vulnerável, por esse ou aquele motivo, fossem reclamar para o papa... O amor coisa tão banal! Para que gastar tempo em dirimir dúvidas, superar carências? Assim era mantida a união homem e mulher num patamar de respeito mútuo, ou do poder de um sobre o outro.

            Negar a palavra à pessoa que nos é mais cara acontecia por insegurança, em princípio. Acreditar que tudo está bem, ou que vai ficar bem um dia, só calar e ter paciência. Os bonzinhos pensam assim. Também os sádicos acham bom tudo ficar como está, nada mude. A ilusão de que o amor permaneça o mesmo até o fim. Ou até que os cabelos embranqueçam, os sentimentos morram de vez e a alegria de viver vá embora. Se bem que a capacidade de regeneração por si mesma existe, sim, se um dos dois não morrerem antes. Acontece que ninguém casa com a pessoa certa, o que escutei dias atrás, e sabendo disso, o casal entenda que deve haver respeito pelo compromisso assumido, boa vontade pelo projeto de vida a ser cumprido. Era o que as pessoas acreditavam no passado, ou levadas a acreditar, pela religião, família e sociedade.

          As coisas são como têm de ser, para que mudar? Isso antes, quando as mulheres ainda não gozavam da independência financeira, como profissionais. Depois tudo mudou, elas tornaram-se donas do nariz, também verborrágicas. Falam que falam, que sempre é bom falar, pois calar hoje é considerado veneno letal para as relações, sejam elas quais forem. No trabalho, com a família, com os amigos, falar sempre. Quem cala consente, dito popular, que não é recente. O que não se deve é compactuar com o erro, e tem caso de necessitar de denúncia às autoridades, quando houver maus tratos.

         Bem verdade que só com o tempo se entende muita coisa, mas é essencial a comunicação verbal, pois na barbárie o pau canta, e ponto final.   Questão de civilidade expressar-se bem em palavras. Mas muito blá, blá, blá, também pode ser desgastante para a relação. Tem que haver afinidade em quase tudo entre as pessoas que buscam o amor ou a amizade, para que não haja conflitos maiores. Essencial a diferença entre os sexos, homem  e  mulher diferentes em pensamento palavras e obras, riqueza que deve ser bem administrada. Pouco, ou nada interessante, viver com um clone, essa união entre pessoas do mesmo sexo, de uma pobreza só.                  




 

segunda-feira, 2 de março de 2015





                  EMÍLIA E MONTEIRO LOBATO

 


           Emília, personagem criada por Monteiro Lobato, é uma boneca de pano, que teima em ser gente de verdade, mas não passa de uma tosca criação de Tia Nastácia, empregada de dona Benta no Sítio do Pica-Pau-Amarelo, a partir de uma saia velha, recheada de macela. Boneca a quem Narizinho quer muito bem e vive a conversar com ela, tão franca que assume sua pobreza e ainda dela se orgulha. O Brasil partia do regime monárquico para o republicano, com um povo inculto, sem expressão e sem voz, e que, de repente, por força de um tal doutor Caramujo, passa a falar sem parar e sem pensar no que fala, com sua “torneirinha de asneira”. A crítica do autor é, em especial, ao ufanismo nacional da época, tosco a mais não poder, com mania de grandeza e ares progressistas, que é só enganação. O progresso aqui dentro, como um animal que se arrasta na praia, como até hoje, os governos populistas, colocando pílulas placebos para o povo engolir, as atuais bolsas. Os brasileiros que patinam na ignorância e atraso, e por conta disso o país não se torna rico, como pode ser de verdade, por faltar conhecimento, cultura, principalmente, aos que nela mandam e desmandam.

     O conservador autor paulistano, Monteiro Lobato, era descendente de barão, fazendeiro,  editor e empresário, além de escritor famoso. Menos nacionalista que progressista, faz crítica feroz à República brasileira, que devia com urgência adotar uma cultura universal, e empenhar-se em fazer parte do mercado internacional. Hoje estamos mais universalistas e menos atrasados, conquanto muita coisa tenha que acontecer, no presente momento, tirar o poder sair das mãos do petismo, que governa os brasileiro da forma como governaria a boneca de pano. Ela se casa com o marquês de Rabicó, representante da pecuária brasileira,  casamento que não dá certo, lógico. Enquanto isso, o Visconde de Sabugosa representa  a nobreza falida da agricultura – os atuais pequenos produtores. Escritor compulsório por ordem de Emília, o boneco feito de sabugo  argui sua cliente sobre quem ela era, e recebe implicante resposta: “Sou a independência, ou morte”. A imaginação irrefreável de Emília atordoa, mas faz pensar. Sua ousadia em querer renovar símbolos religiosos e culturais de uma determinada época. Nada que ameace a esperança e a fé, pelo contrário. 

       Está aí um cenário perfeito para fazer pensar o Brasil atual. E é oportuno falar do criador de Emília uma vez que a Ministra da Igualdade Racial, Nilma Lino Gomes, propõe que Monteiro Lobato seja banido das escolas. Teria ela razão? O bom senso diz que não, tratando-se de um dos maiores escritores brasileiros, que, no mínimo, faz as crianças gostarem de ler, como aconteceu com gerações e gerações de seus leitores, alguns que se tornaram grandes escritores, tal qual o criador de Emília, que fez representar a raça negra através de Tia Nastácia e a branca, por dona Benta com seus netos Narizinho e Pedrinho, herdeiros dessa tradição. Enquanto a boneca de pano seria uma audaciosa revolução política e cultural brasileira, que perdura até hoje.